sábado, 5 de dezembro de 2015

A PARANOIA INTERPRETATIVA ou UMA RESPOSTA A LUÍS FERNANDO PESSOA

A PARANOIA INTERPRETATIVA, ou UMA RESPOSTA A LUÍS FERNANDO PESSOA
por Vitor Barreto.
Revisão: Fabrício Tavares.


[Nota: Infelizmente, o texto a que nos referimos é fruto de todo um trabalho que tem sido construído dentro do conservadorismo brasileiro, especialmente em sua matriz católica, contra o protestantismo. Que ele sirva de alerta para os líderes reformados no nosso país.]

A onda conservadora tupiniquim, ainda tão adolescente – se é que chegou na adolescência –, mostra os ares de sua imaturidade no texto “Calvino e a Mentalidade Revolucionária”, escrito pelo senhor Luís Fernando Pessoa, professor de História Antiga e Medieval da Universidade Estadual de Maringá, PR. Esperava eu, quando me foi enviado o referido texto, encontrar algum trabalho acadêmico respeitável e não uma peça de desinformação tão supostamente bem intencionada.

A tese do senhor Pessoa é que João Calvino, reformador francês, que influenciou indiretamente o desenvolvimento político religioso e cultural de países conservadores como a Inglaterra e os EUA, supostamente enquadra-se dentro das características apontadas pelo professor Olavo de Carvalho dentro do fenômeno que este denomina de “mentalidade revolucionária”. Não convém entrar no mérito da teoria do professor de Carvalho a respeito da mentalidade revolucionária, que creio pessoalmente ser verossímil. Me ocuparei, destarte, à tentativa imperita de interpretar a pessoa de João Calvino na tese do referido professor universitário.

O professor introduz o texto com a exposição da inversão do tempo histórico como uma das características da mentalidade revolucionária. Em relação a João Calvino, contudo, isso não significa absolutamente nada. Calvino não era como os camponeses revolucionários da Alemanha ou como os anabatistas que perturbaram a ordem civil na Europa. Em primeiro lugar, o reformador de Genebra não acreditava em um "progresso civilizacional contínuo" como creem os revolucionários, e muito menos julgava-se um "eleito" no sentido de impulsionar tal progresso  [seria por demais desgastante e vergonhoso ter que explicar que Calvino não inventou a doutrina da eleição, além de desviar um pouco do tema; por essa razão não tratarei do assunto]. Para Calvino, Deus sempre punirá um povo na medida em que este se fizer condenável diante de Sua justiça; o único progresso que Calvino assevera sem dúvidas é o da expansão do Reino em razão das profecias que garantem que o Evangelho se difundirá por todo o mundo. Os camponeses e anabatistas, contudo, desejavam revolucionar as relações sociais. Muitos deles criam que o Reino de Deus seria estabelecido pelas mãos das pessoas naquele momento. Foi contra eles que Calvino escreveu:

"De princípio, antes que entremos na própria matéria, deve-se levar em conta aquela distinção por nós anteriormente estabelecida, de sorte que, a um tempo, não misturemos imprudentemente, o que comumente sucede a muitos, estas duas coisas que têm natureza inteiramente diversa. [...] Mas quem sabe discernir entre o corpo e a alma, entre esta vida presente e a transitória, e aquela vida futura e eterna, não terá dificuldade em entender que o reino espiritual de Cristo e a ordem civil são coisas muitíssimo distintas entre si. [...] nos lembramos de conter dentro de seus limites toda esta liberdade que nele nos é prometida e oferecida. [...] não importa em que condições estejas entre os homens, sob leis de que país vivas, uma vez que o reino de Cristo está mui longe de se situar nessas coisas. [...] Ora, a respeito do que alegam, que deve haver na Igreja de Deus tal perfeição que façam as vezes de quantas leis demandem, tal imaginação é uma insensatez, pois jamais poderá existir tal perfeição em qualquer sociedade humana." [1] 

A não ser que um leitor interprete desonestamente, ninguém pode negar que Calvino não confundia as "reformas sociais" que tentou promover para tirar Genebra do caos civil em que se encontrava com a tentativa de impor a própria vontade para a criação de um "futuro melhor", como se assim buscasse o Reino de Deus dentro de um progresso histórico, como defendia Shleiermacher e outros. Possíveis otimismos em relação ao futuro, convivendo ao mesmo tempo com o pessimismo, não são de forma alguma incompatíveis, caso resguardados seus devidos aspectos. Ninguém chamaria a Igreja de Roma de revolucionária (se pressupuséssemos preguiçosamente seu argumento histórico) quando lembramos que o monge Telêmaco findou as lutas de gladiadores, ou que a fé cristã ajudou a valorizar o casamento como uma instituição para os escravos, ou que Tomás de Aquino tenha criticado a prática da tortura, ou que o monge hoje conhecido como Bonifácio derrubou o carvalho sagrado dedicado ao deus Thor no processo de evangelização das tribos germânicas, etc. Semelhantemente, Calvino pediu para que Servetus não fosse executado no fogo por sua heresia (por ser a fogueira por demais cruel), etc. O reformador tinha um padrão transcendente imutável independente de si mesmo, ao qual buscou se adequar. Que horrível crime, esse, não?! Ao ler o texto do professor Luís, temos a impressão de estudar um esquizofrênico que teve a sorte de ser rigorosamente lógico, e, por acaso, tinha amplo conhecimento da Patrística e das Escrituras. O professor Luís Fernando Pessoa ataca ferrenhamente uma caricatura, um espantalho, como veremos a seguir.

O argumento gira em torno da seguinte citação de Calvino que Luís acredita conter uma evidência da mentalidade revolucionária:


“Pois, ainda que Deus tenha consagrado minha alma ao zelo, tanto da propagação de seu reino como do serviço para o proveito comum, estou também dignamente cônscio de que terei Ele e os anjos como testemunhas, desde que recebi o ofício de doutor na Igreja, de a nada mais ter-me proposto senão fazer avançar a Igreja, afiançando a sincera doutrina da piedade” (CALVINO, 2007, p.12)"

Para o professor, a frase supracitada do reformador apresenta uma característica da mentalidade revolucionária pela “certeza de que ele está ao lado de Deus e que é Ele mesmo quem o justifica em sua tarefa de levar adiante o que considera como a verdadeira religião“. Uma associação dessa natureza leva-nos certamente a vários problemas – por que não dizer? – hirsutos, já que tal crença pode ser reconhecida em todos os profetas, apóstolos, missionários, bispos católicos, padres e pastores evangélicos. É próprio do adepto fiel de uma religião crer que ele segue a religião verdadeira, ou haveríamos de ser demasiado estúpidos pra crermos que o cristianismo é a religião verdadeira, mas que, ao invés, deveríamos difundir o budismo pelo mundo afora, ou viver como se não crêssemos em Cristo. Em contrário, vejamos o que escreveu o profeta Isaías (50:5-9) que citarei na tradução católica para evitar possíveis lamúrias. 

“{o Senhor Deus abriu-me o ouvido} e eu não relutei, não me esquivei. Aos que me feriam, apresentei as espáduas, e as faces àqueles que me arrancavam a barba; não desviei o rosto dos ultrajes e dos escarros. Mas o Senhor Deus vem em meu auxílio: eis por que não me senti desonrado; enrijeci meu rosto como uma pedra, convicto de não ser desapontado. Aquele que me fará justiça aí está. Quem ousará atacar-me? Vamos medir-nos! Quem será meu adversário? Que se apresente! O Senhor Deus vem em meu auxílio: quem ousaria condenar-me? Cairão em frangalhos como um manto velho; a traça os roerá.”

O profeta Isaías julgou-se no “direito” (para usar o termo do homônimo do poeta português) de contestar todo o caminho que o povo de Israel seguia, e assim trazê-los para o padrão veterotestamentário da Lei de Deus. Isaías cria-se vocacionado por Deus para tal missão que julgava estar absolutamente correta. Que coisa horrenda, não? Um verdadeiro revolucionário! Ou talvez um mero crente. Seria curioso o honrado Luís, aparentemente aluno do Olavo de Carvalho, fazer o mesmíssimo julgamento contra um dos maiores santos católicos romanos, São Francisco de Assis. Sim, porque Francisco (aparentemente tão respeitado e recortado em suas opiniões por católicos romanos tão ingênuos quanto um Brás Cubas ou um Dom Quixote) julgou-se escolhido por Deus para uma missão através de uma experiência sobrenatural, que deu-lhe fé tal que fê-lo viver como um asceta confuso em nome de um padrão moral que certamente não é bíblico, e a quem Eric Voegelin diz ser o “símbolo da revolução”. [História das Ideias Políticas – v. II, p. 161] Confesso, sinceramente, que gostaria que o professor de Maringá conduzisse adiante tal empreitada – ou talvez haja algum tipo de limitação de conteúdo entre os alunos do professor, uma espécie de agenda de opiniões proibidas.

Depois de afirmação tão curiosa, a próxima assertiva do mesmo parágrafo será dividida em duas partes por questões didáticas. Primeiro ele diz que “Calvino desenvolve a certeza de que está predestinado a corrigir a sociedade através de uma transformação social profunda”. O termo "profunda" aqui é subjetivo e é de inteira responsabilidade do autor. Calvino queria sim, promover transformações sociais, mas não como ele supõe. Quando Calvino fala em "expandir o reino", ele refere-se primeiramente à expansão do próprio Evangelho, não da transformação social em si, que seria obra do Espírito Santo através da pregação da Palavra, coisa que todo cristão deveria supor naturalmente. Como dissemos no parágrafo anterior, o profeta Isaías queria promover uma transformação social "profunda" em Israel: lançar fora toda idolatria, corrupção espiritual dos sacerdotes e a maldade da monarquia. Ora, outro tipo de mudança social foi promovido pelo apóstolo Paulo, embora indiretamente, quando prejudicou a economia da cidade de Éfeso com sua pregação (Atos 19). A cidade de Éfeso era um centro de culto à deusa Ártemis, e a conversão dos cristãos significou prejuízo financeiro para os forjadores de ídolos. Seria necessário supor que uma religião não pode de forma alguma influenciar a vida social de uma comunidade para julgar qualquer influência como revolucionária. Talvez o professor creia, ainda que irrefletidamente, que ser cristão é uma mera intuição intelectual que não pode causar transformações sociais, de maneira que não é possível ver a si próprio como um missionário da obra de Deus. De semelhante modo, talvez ele entenda que a fé cristã tenha que subsistir apenas subjetivamente, não tenho absolutamente nenhuma opinião acerca das relações sociais (quando, na realidade, tem). Se assim o for, temos perante nós uma situação menos do que existencialista. Calvino não aboliu nenhum tipo de relação social, mas as adequou ao padrão cristão, da mesma forma que os profetas do Antigo Testamento exigiam que o povo desviado retornasse ao padrão do Pacto. Ora, sabe-se, para citar mais um exemplo, que, no retorno do cativeiro babilônico, o povo hebreu, tomando a Lei Mosaica como padrão, desfez todos os casamentos entre os judeus e as mulheres pagãs. O casamento entre judeus e membros de outras religiões era proibido (Esdras 9 e 10). Calvino não faz nada sequer parecido com isso. Esdras, que também cria ter a responsabilidade de organizar o povo por vocação divina, era um revolucionário? 

Vamos então à segunda parte do recorte. O sr. Luís afirma que Calvino desejava promover a tal “transformação social mediante a concentração de poderes em suas mãos”. Gostaríamos de saber a partir de que material o referido professor universitário tomou conhecimento da vida de Calvino. Estamos falando de modo sincero, porque até mesmo na leitura mais superficial das Institutas é possível notar justamente o contrário do que o professor afirma. Calvino não tinha o poder concentrado em suas mãos, nem almejou tal coisa. Este mito pueril é comum entre apologistas papistas de fóruns de quinta categoria, mas não é de se esperar de um professor universitário (muito menos um professor de História!). Prossigamos às informações contra a desinformação:


1. O reformador, a priori, não desejava sequer ser pastor. Seu intuito original era ser um teólogo recluso. Foi Guilherme Farel, outro reformador, quem o convenceu, mediante uma imprecação, a aceitar o chamado para o pastorado. Guilherme também havia iniciado a Reforma em Genebra antes da chegada do francês, e a cidade, então, vivia um caos.  

2. Calvino era francês, não cidadão suíço. Sua autoridade em Genebra era apenas indireta, tomando forma de um conselheiro moral, na melhor das hipóteses. Ele não foi nunca um membro governante do Conselho e, de fato, não poderia ser membro no corpo governante mais alto, pois apenas cidadãos de Genebra (os nascidos em Genebra como cidadãos) podiam ocupar tal cargo.

3. Calvino defendia a separação entre a Igreja e o Estado, mas subjugava ambos à religião cristã. A religião cristã estabelece a função das autoridades civis. Contudo, isso jamais seria forçado, visto que, para Calvino, um cristão deveria reconhecer a autoridade dos magistrados, exceto nos casos em que o governo o obrigasse a cometer pecados. E isso incluiria o governo civil de Genebra, que não era sujeito a Calvino, como vimos. Para Calvino, a prudência conduziria exatamente à conclusão contrária: afinal, a divisão dos poderes é mais prudente. Embora reconhecesse que a Bíblia não impõe um modelo estatal específico, Calvino prefere a aristocracia ou a democracia, ou uma mistura de ambos, visto que, ainda que devendo respeito aos monarcas, entendesse que uma monarquia pode ser mais perigosa por concentrar os poderes nas mãos de um único indivíduo. A divisão dos poderes, portanto, seria uma garantia de proteção da ordem civil. Portanto, como Calvino, que discorreu mais sobre os deveres dos governantes do que sobre os seus direitos, exigia para si a autoridade, se ele mesmo ensinava o contrário disso? Não foi por acaso que em todos os países onde o calvinismo alcançou certa influência, ocorreu exatamente o inverso do que o professor Luís entende: foram os calvinistas que tiraram a Inglaterra do Absolutismo e diminuíram o autoritarismo na Holanda, por exemplo. É o famoso Alexis de Tocqueville, reconhecido por qualquer conservador, quem aponta a influência dos puritanos na formação dos EUA. Ele diz: 

"... os imigrantes da Nova Inglaterra levavam consigo admiráveis elementos de ordem e de moralidade; entravam pelo deserto acompanhados de suas esposas e de seus filhos. Mas o que os distinguia, sobretudo, de todos os outros [colonizadores] era a própria finalidade de sua empreitada. Não tinham abandonado o seu país forçados pela necessidade; deixavam para trás uma posição social cuja perda seria lamentável e meios de vida garantidos; tampouco passaram ao Novo Mundo a fim de ali melhorar a sua situação ou de fazer aumentar as suas riquezas; arrancavam-se às doçuras da pátria para obedecer a uma necessidade puramente intelectual; expondo-se às misérias inevitáveis do exílio, desejavam fazer triunfar uma ideia. [...] As colônias inglesas, e foi essa uma das principais causas da sua prosperidade, sempre gozaram de maior liberdade interior e de maior independência política que as de outras nações; em nenhuma parte, porém, foi esse princípio de liberdade mais completamente aplicado que nos Estados da Nova Inglaterra." [2] 


Ainda, segundo Francis Schaeffer, John Locke simplesmente secularizou, sobre uma base iluminista, princípios políticos de puritanos como Samuel Rutherford. Schaeffer explica isso partindo da influência do reformador de Estrasburgo, Martin Bucer: 

“O modelo constitucionalista, implícito na política da Igreja Presbiteriana, não era só um exemplo, mas um aprendizado para os princípios da limitação política. E, mesmo naqueles lugares em que, como no caso da Inglaterra, o presbiterianismo como tal não vingou, suas ideias políticas acabaram sendo difundidas por meio de múltiplos e complexos grupos na vida pública inglesa, assumindo o papel criativo na diminuição do poder dos reis ingleses. Como resultado, os cidadãos comuns acabaram descobrindo uma forma de se livrar do poder governamental arbitrário, em uma época em que todos os países estavam caminhando rumo a alternativas políticas absolutistas (...) Muitas coisas boas na Inglaterra vieram da Escócia. Temos em um livro escrito por um escocês, Samuel Rutherford (1600-1661), o mais claro exemplo de um dos princípios da Reforma, que é o controle político da soberania por parte do povo [embora não haja aqui ainda o conceito de soberania popular]. O livro chama-se Lex Rex: a lei é Rei. (...) A obra de Samuel Rutherford e a tradição que ela encarnava tiveram grande influência sobre a Constituição dos Estados Unidos, por mais que os povos anglo-saxões de hoje tenham esquecido amplamente. A primeira foi John Wisterspoon (1723-1794), um presbiteriano que seguia o Lex Rex de Rutherford à risca usando os seus princípios pra base da Constituição e o estabelecimento de formas e liberdades. (...) O segundo veiculador da influência de Rutherford foi John Locke (1632-1704) que, embora secularizando a tradição presbiteriana, foi fortemente influenciado por ela.” [3] 

4. João Calvino não concentrava poderes nem mesmo dentro da igreja reformada que ele ajudou a construir. Foi, aliás, o próprio reformador que, levando em conta o modelo de governo eclesial bíblico de presbíteros (à luz da autoridade crescente do bispo a partir do segundo século em virtude da luta contra as heresias), criou um modelo de governo descentralizado. Calvino estabeleceu quatro ofícios na Igreja: pastores, mestres (doutores), presbíteros e diáconos. O poder de influência da Igreja em Genebra era estabelecido pelo “Venerável Conselho de Pastores”, que era formado, inclusive, por leigos, possuindo uma função meramente eclesial. Era o Consistório, ou Presbitério, que tinha obrigação de manter a disciplina entre os cristãos. Foi daqui que nasceu o outro mito em torno de Calvino sobre a tal “rede de espionagem”. Infelizmente, para estes, o Consistório não dispunha do direito de punição civil. [4] A cidade era conduzida por meio do governo dos presbíteros, todavia, Calvino não foi um inovador. Em muitas cidades, algumas leis foram ignoradas e outras foram “acrescentadas”, tão somente. A única inovação foi que essas leis começaram a ser aplicadas. Deveríamos considerar Calvino revolucionário por não ser “brasileiro”? Deveríamos considerar o Antigo Israel uma nação revolucionária por proibir a prostituição escancarada?   

O católico Richard Dawson, reconhecido dentro do meio conservador, afirma com todas as letras que Calvino não era um revolucionário.  

“Assim, após desfrutar de uma geração livre e individualista, de maneira quase irrestrita, o protestantismo trouxe de volta os padrões mais estritos de conformidade religiosa, tanto na ideologia quanto no comportamento. A tensão era severa, mas a força interior da disciplina genebrina deu às Igrejas Calvinistas o poder de não resistir somente à pressão hostil, mas a reagir com sucesso à agressão e à ação revolucionária. Calvino não era um revolucionário político. Respeitava os direitos da autoridade civil, e sempre teve esperanças de que o rei pudesse tolerar a religião reformada, ou mesmo que se tornasse seu protetor.” [5]

E o próprio Dawson ainda informa sobre uma carta escrita por Calvino para o almirante Garpard de Coligny em 1559 onde afirmou que “era melhor todos perecerem centenas de vezes do que o Evangelho ficar exposto ao opróbio como causa da guerra civil e da carnificina.” [6]

5. Ademais, há inúmeras evidências das controvérsias entre Calvino e os Magistrados Civis e até mesmo com outros reformadores. Não sabe o digníssimo professor que Calvino foi expulso de Genebra durante 3 anos, permanecendo em exílio – e não no propósito de estabelecer alguma revolução (que pena!) – desde então? Findado o período de três anos, no qual contraiu matrimônio, foi convidado pela própria cidade de Genebra a retornar e auxiliar na organização da cidade conturbada. Em outra ocasião, para citar um exemplo, Calvino discordou da opinião de diversos membros da igreja reformada e dos Magistrados, todos contemporâneos seus, sobre a festividade do Natal. Isto está registrado em uma carta de Calvino ao pastor da cidade de Berna, Jean Haller, de 2 de janeiro de 1551. Nela, Calvino escreveu: “Antes da minha chamada à cidade, eles não tinham nenhuma festa exceto no dia do Senhor. Desde então eu tenho procurado moderação a fim de que o nascimento de Cristo seja celebrado”. [7] E mais: “Calvino procurou atenuar a severidade destes decretos [sobre a Santa Ceia] fazendo arranjos para que as datas da comunhão variassem em cada igreja da cidade, provendo assim oportunidade para a comunhão mais frequente do povo, que podia comungar em uma igreja vizinha”. [8] 

Entre “procurar moderação” e estabelecer ditatorialmente, como sugerem muitos apologetas romanistas e até mesmo Olavo de Carvalho, creio que há a mesma diferença existente entre o casamento e a escravidão sexual. Em contrapartida, seria a influência de Calvino tão incontestável se seus herdeiros na Escócia tivessem abolido temporariamente o Natal em desacordo com ele mesmo? 

O conflito entre a Igreja de Genebra e os Magistrados torna-se ainda mais evidente quando lemos que, logo depois da morte de Calvino, os Magistrados exigiram para si o direito de excomunhão, em virtude da inconformidade da teoria da relação entre Estado e Igreja de Calvino com as estruturas sociais existentes. Para Calvino, tal direito cabia à Igreja, enquanto os Magistrados preferiram ficar com a opinião de outros reformadores como Zwínglio. Como Richard C. Gable escreveu:


“Em setembro de 1548, o Conselho da cidade determinou que os pastores podiam apenas exortar o povo, mas não excomungá-lo. Em dezembro, o Conselho prosseguiu em suas tentativas de usurpar o poder dando a Guichard Roux a permissão de receber a Ceia do Senhor, após ter sido proibido de fazê-lo pelo Consistório. O próprio Calvino foi admoestado pelo Conselho no dia 24 de setembro de 1548 por causa de uma carta que tinha escrito, criticando os magistrados de Genebra. Após vários protestos e esforços dos pastores, o Conselho finalmente concordou, em 24 de janeiro de 1555, em conceder ao Consistório os direitos que lhe cabiam conforme o estabelecido pelas Ordenanças Eclesiásticas de 1541. Basicamente, as Ordenanças Eclesiásticas estabeleciam o padrão pelo qual a Igreja funcionaria. Foram estabelecidos o horário e o número de cultos na cidade, bem como a frequência dos pastores aos encontros e outras regulamentações, tais como a excomunhão.” [9]

Parece incontestável que Calvino foi um “conciliador”, não um ditador revolucionário. Creio que não é necessário tecer comentários sobre a seguinte frase: “o da iluminação divina do indivíduo que se vê a si mesmo como o portador de uma mensagem transformadora e necessária para toda a humanidade.” Afinal, o Evangelho é exatamente isso. O problema é saber se o que Calvino crê é o Evangelho verdadeiro ou se a verdadeira religião cristã consiste em autoflagelações parecidas com as praticadas pelo islamismo ou com o ascetismo monástico neoplatônico que em termos práticos difere muito pouco do ascetismo das seitas gnósticas. Discutir isso, contudo, não é o cerne deste ensaio.

O próximo parágrafo é especialmente interessante.


“Quando Calvino afirma “ainda que Deus tenha consagrado minha alma ao zelo, tanto da propagação de seu reino como do serviço para o proveito comum” ele utiliza um tipo de raciocínio que o aproxima da Divindade e o faz não apenas mais próximo dela como também seu principal e provavelmente único representante aqui na terra. Ser um representante de Deus, nesse sentido, significa fazer o possível para que Sua vontade seja realizada.”

Sobre isso, primeiro devemos atentar para o fato de que ter Deus como tutor espiritual é a crença do cristianismo desde, digamos, sempre. Afinal, a Igreja Católica Romana defende a mesmíssima coisa. Não é a Igreja de Roma responsável para fazer “o possível para que Sua Vontade seja realizada?”. Atenhamo-nos ao papa: ora, não seria o papa um consagrado por Deus? O papa não é, para voltar às palavras de Luís, “um representante de Deus”? Todos os papas Curialistas reclamaram posição semelhante. Decerto que Calvino não é um papa e jamais considerou-se assim, nem foi considerado por quem quer que seja, o que torna-se evidente a partir das informações colocadas há pouco. O reformador de Genebra nunca foi papa e nunca foi tido como infalível, e isto é evidente, noutro exemplo, pelo calendário festivo e pela forma de culto da Igreja Reformada na Escócia, capitaneada por um pastor pessoalmente doutrinado por Calvino, John Knox. Na Escócia, muitas opiniões de Calvino não foram seguidas. Como ele mesmo diz, João Calvino era um “doutor”, um “mestre”, ofício esse que aliás foi reconhecido pelo apóstolo Paulo em Efésios 4:11, e que muitos católicos romanos também creram ser.

O maior disparate é, a partir da aparente ignorância das doutrinas calvinistas, entender que “parece claro que se o indivíduo acredita firmemente que está representando o próprio Deus entre os homens, aqui, no que seria o vale de lágrimas de nossa história, não seria de se imaginar que o mesmo sujeito acreditasse que houvesse entre os próprios homens – dentre os quais ele é um –, pelo menos um que o pudesse questionar ou rebater.” Não, sr. Luís Fernando. Não parece nada claro, exceto para uma mente tendenciosa e tomada por tanta desinformação. 

Como ficou claro (e, desta vez, efetivamente claro) por tudo o que escrevi até aqui, Calvino jamais disse que era inquestionável. Fica ao autor o ônus da prova, alguma afirmação que sustente seu disparate. Tomás de Aquino, idolatrado por alguns, considerava a si mesmo inquestionável pelo fato de não ter deixado nenhum registro oficial do contrário? Se contudo, o reformador tinha uma argumentação sólida e coerente, seus críticos deveriam proceder com uma investigação mais prudente a fim de verificar se ele não está provavelmente certo. A menos que alguém possa ser devidamente corrigido, não há razão alguma para que este creia estar errado em alguma proposição, ainda que não considere a si mesmo como sendo infalível. Apesar de seus herdeiros serem chamados "calvinistas", a exegese bíblica avançou desde o reformador e alguns de seus pontos são contestados por diversas vertentes. Alguns questionam um aspecto da doutrina do batismo de João Calvino, outros divergem a respeito da eclesiologia ou da escatologia. Porém, mesmo um teórico anti-Reforma como Eric Voegelin afirmou que a obra do reformador francês possuía uma “unidade inteligível de significação ... como a defesa que um advogado faz de uma causa.” [10] As opiniões negativas de Voegelin sobre Calvino e a Reforma, ora baseadas nos mesmos mitos apologéticos anti-calvinistas dos quais os católicos abusam, ora de interpretações tão desastradas quanto essa do professor Luís (o cientista político Hans Kelsen, que foi professor de Voegelin, escreveu uma crítica à interpretação tendenciosa que Voegelin faz do puritanismo a partir da opinião de um detrator e de leituras enviesadas do filósofo), ora por causa de seus pressupostos. Voegelin era influenciado pela neo-ortodoxia e tinha Karl Barth e Rudolph Bultmann como suas referências de “cristianismo”. Por isso, Voegelin crê que “nenhuma doutrina bíblica pode ser extraída do texto [bíblico]”, ou que “a Cristandade dos Evangelhos sinóticos, do Evangelho de São João, das Epístolas de São Paulo e da Epístola aos Hebreus representa variantes que não podem ser organizadas numa doutrina sistemática sem contradições” [11]. Afirmações dessa natureza são coerentes com a crença que Karl Barth tinha em paradoxos. Ademais, Voegelin é tomado pelo dualismo natureza-graça, e acredita que o Antigo Testamento e a filosofia grega são na verdade os “dois antigos testamentos”, como enfatiza Mendo Castro em seu livro “A Filosofia Civil de Eric Voegelin”. Diga-se de passagem, opinião semelhante jamais foi esposada por qualquer cristão verdadeiro. Já os gnósticos – que ironia do destino! – criam em algo mais próximo disso. Afinal, Voegelin parece entender a encarnação de Cristo como a revelação daquilo que a filosofia grega buscava. É curioso, no fim das contas, que o próprio Voegelin, depois de acusar toda e qualquer criatura viva ao seu redor de “gnosticismo” em sua “Nova Ciência da Política”, foi chamado de “gnóstico” por vários estudiosos. Voltando a Calvino, Voegelin parece mais fascinado por investigações metafísicas, às quais atribui caráter de “genuína intelectualidade”; o que faz parecer que a tentativa de organizar uma doutrina que, para ele, não pode ser organizada de forma alguma, configura-se realmente como o trabalho de um burro. Talvez Calvino fosse burro, então. Ou talvez Voegelin fosse só um incrédulo que supervaloriza a própria opinião, não muito diferente dos “burros” – no julgamento dele – Lutero e Calvino.

Talvez o querido professor Luís Fernando Pessoa tenha o mesmo problema de interpretação paranoica que Voegelin teve ao estudar a Reforma e os Puritanos, o que lhe valeu críticas até irônicas. Se isso não é causa de um vício apologético católico, talvez o seja de demasiada credibilidade sem crítica acadêmica às opiniões de um certo alguém, ou talvez ainda o efeito de algum intoxicante chá de cogumelos, que o conduziu a uma paranoia que vê mentalidade revolucionária em tudo, assim como Eric via gnosticismo em tudo (até nos apóstolos e profetas). De seu texto, certamente, não há nada que se aproveite. 

1. João Calvino, "As Institutas da Religião Cristã", Vol. IV, XX, I-III, p. 453.
2. Alexis de Tocqueville, "A Democracia na America", Edit. Itatiaia Ltda. e Edit. da Universidade de São Paulo, 1977, p. 33-36.
3. Francis Schaeffer, “Como Viveremos”, p. 65-67.
4. Citado por Richard C. Gamble em “Calvino e Sua Influência no Mundo Ocidenal”; Philip Schaff, History of the Christian Church, vol. 8, (1960; ed. reimpr., Grand Rapids: Eerdmans, 1979, pp. 481-482); James Mackinnon, Calvin and the Reformation (Londres: Longmans. Green, 1936, p. 77-81.
5. Richard Dawson, “A Divisão da Cristandade”, p. 163.
6. Ibid., p. 165.
7. Citado pro Solano Portela em “Calvino Contra o Natal?”; Selected Works of John Calvin: Tracts and Letters, editadas por Jules Bonnet, traduzida para o inglês por David Constable; Grand Rapids: Baker Book House, 1983, 454 páginas; reprodução de Letters of John Calvin (Philadelphia: Presbyterian Board of Publication, 1858).
8. Ibid.; William D. Maxwell, El Culto Cristiano: sua evolución y sus formas, p. 140-141], costume este que se tornou comum na Escócia. [Cf. William D. Maxwell, El Culto Cristiano: sua evolución y sus formas, p. 141.
9. Richard C. Gamble, “Calvino e sua Influência no Mundo Ocidental” (Organizado por W. Stanford Reid), p. 90.
10. Eric Voegelin, “História das Ideias Políticas – Vol. IV: Renascença e Reforma”, p. 321.
11. Ibid., “História das Ideias Políticas – Vol. IV: Renascença e Reforma”, p. 320.

sábado, 7 de novembro de 2015


O DEMÔNIO FAMINTO
por Vitor Barreto.

Vivemos numa sociedade de consumo. Constantemente ouvimos ou lemos tal termo, mas nem sempre temos uma real consciência do que ele de fato implica. O conceito de consumo a que me refiro no presente artigo ultrapassa o entendimento comum do consumo de produtos industrializados. Não trata-se, portanto, de um sinônimo de capitalismo, mas de um culto à exigência. 

Uma sociedade centrada no consumo é aquela mais interessada em receber do que em produzir. As pessoas querem que tudo lhes seja oferecido como "direito fundamental". Em vez de produzirmos, consideramos justo apenas exigir, e essa exigência chega finalmente ao Estado. Assim, nesse sentido, a busca pela satisfação de si mesmo, ou de determinados grupos, é a premissa fundamental, jamais o serviço a Deus. “O significado de liberdade então vem a ser liberdade de consumo”, diz R. J. Rushdoony em seu livro Sovereignty.

Tal mentalidade de "direito ao consumo" é comum à esquerda e ao libertarianismo de direita, como observou Theodore Dalrymple.

"Existe uma aliança ímpia entre a esquerda, que acredita que o homem é dotado de direitos sem deveres, e os libertários da direita, os quais acreditam que a escolha do consumidor é a resposta para todas as questões - uma ideia avidamente adotada pela esquerda, sobretudo naqueles setores nos quais não se aplica. Dessa forma, as pessoas se veem no direito de gerar crianças da forma como bem entendem, e as crianças, certamente, têm o direito de não serem privadas de nada, ao menos nada no plano material." [1]


A raiz dessa alteração do centro da vida social, que anteriormente pautada em Deus passa a se fundamentar no homem, está na negação cada vez maior da transcendência em favor de uma cosmovisão naturalista. Freud, em seu livro “Moisés e o monoteísmo” – um livro demasiado anti-cristão, diga-se de passagem, e que cuja leitura é totalmente desnecessária – faz uma interessante observação sobre a transição efetuada pela religião cristã na ascensão do patriarcado em relação ao matriarcado em antigas religiões pagãs. O psicanalista francês Charles Melman, considerado herdeiro de Freud na França, comenta:


“De fato, há em Freud uma observação, que, aliás, não lhe é pessoal, a qual estabelece que essa passagem do matriarcado para o patriarcado se constituiu um progresso para a humanidade. Progresso espiritual, progresso mental, já que passou das regras da evidência às regras da crença. Precisamos, entretanto, apreender primeiro a diferença entre os dois regimes. Se percebermos que eles advêm de uma estrutura radicalmente diferente, talvez possamos melhor entender o que significa “progresso” aqui; por que razão, efetivamente, podemos falar de progresso? Essa diferença de estrutura se liga a quê? Passamos, acabo de dizer, de um regime fundado na evidência e na positividade, tal como o matriarcado as sustenta, a esse outro regime em que o que importa e o que conduz é a ordem da fé – e remonta ao que nós, analistas, chamamos de pacto simbólico. 
O matriarcado regula, com efeito, a questão da causa, da causalidade. E primeiro, no que concerne à fecundação, ao dizer que o processo se origina num mecanismo evidente e que não poderia ser mais positivo: a mãe é a causa do filho. Estabelece-se, então, um regime em que a mãe, como presente no campo da realidade – quer dizer, enquanto não se funda em nenhum mistério, mas em seu próprio poder, sua própria autoridade –, se encontra investida de potência que é para todos os seres humanos a potência suprema [...] O que não quer dizer que o pai, um dos dois genitores, não serviu para nada. Mas sua função se mostra acessória, de nenhum modo necessária. Mãe e filho são suficientes, então, para assegurar a continuidade de uma cadeia de gerações que, assim, tem a vantagem, vemos bem, de ser sem mistério. [...] O pai da realidade [no Cristianismo], o bravo pai de família, nada mais é do que o representante, o delegado, o funcionário de um Pai situado no real.” [2] 

As antigas religiões da natureza, em especial, eram devotadas aos cultos do feminino, às deusas femininas, geralmente ligadas à fertilidade, pelas razões explicadas por Melman no trecho supracitado. No Antigo Testamento, temos o culto à deusa Astarote despontando dentro de Israel algumas vezes. E apesar da existência de certo patriarcalismo em outros povos, o Ocidente cristão tem a autoridade paterna fundada na religião cristã, quando a transcendência retira o pensamento do homem do reino da evidência e o conduz à fé, à profecia, à eternidade. Em outras palavras, numa sociedade “científica”, tecnicista e naturalista, na qual a religião cristã foi condenada como superstição, assistimos a tendência de destruição da autoridade do pai em favor do retorno do matriarcado, especialmente no século XX, que foi nitidamente alavancado pela revolução sexual que veio arrancar as sementes cristãs que vingaram em terras ocidentais. Mas não só isso: há a explosão de religiões neopagãs que cultuam o princípio feminino. A Wicca é apenas uma delas.

O pai, por outro lado, não retira sua autoridade da “natureza” em uma cosmovisão materialista. Com o cristianismo, aprendemos a lidar com o real que não é encontrado na textura empírica. Esse tipo de introdução simbolizada na figura paterna tornou possível, por exemplo, a descoberta por parte do matemático alemão Cantor dos números ordinais transfinitos. Percebendo que a sequência de números é infinita, ele nomeou esse inatingível de “Aleph”, que simplesmente está fora do campo da realidade. 

Um segundo ponto, profundamente relacionado a essa paulatina negação da transcendência, é a teoria do Contrato Social, um marco da revolução secularizante. Com o Iluminismo, o homem secularizou a doutrina do Pacto em um Contrato entre iguais, uma paródia, onde as vontades dos iguais são o parâmetro; não é, sobretudo, um Pacto de Graça. A obra de John Locke frutificou na França, e marcou a história Ocidental. R. J. Rushdoony, comentando sobre o efeito desse processo dentro da Revolução Civil, dá-nos o entendimento-chave:


“É claro, depois de Rousseau, a vontade de Deus foi substituída por uma nova infalibilidade, a vontade geral das pessoas. Desde que essa vontade geral seja desconhecida até que seja expressada, o estado não tem critério definido exceto um suposto desenvolvimento da vontade geral. Em consequência da substituição da vontade de Deus pela vontade geral, há uma mudança da ênfase dos deveres do homem em relação a Deus para os direitos humanos. Direitos substituíram deveres, o foco da sociedade mudou de produção para consumo. O homem vive como um consumidor, não como uma criatura feita à Imagem de Deus e de quem se requer o serviço a Deus de todo o coração, mente e ser. Não é Deus quem deve ser servido, mas o homem e o estado. Deus como legislador foi substituído pelo homem.” [3]

O homem deixa de ser um servo de Deus para se tornar um consumidor. Isso necessariamente afetaria todas as relações humanas, apesar da resistência cristã. 

Em primeiro lugar, há uma tendência geral de crescimento do infantilismo e uma revolta contra a maturidade. A relação entre um bebê e sua mãe é de completo consumo e dependência. Apenas a maturidade pode conduzir à independência e ao auto sustento. Não por acaso, psicanalistas como o próprio humanista Melman e também o conservador britânico Dalrymple testemunham o mesmo fenômeno, no qual a adolescência se prolonga até idades cada vez mais avançadas. Esse infantilismo governará também todas as relações, inclusive em relação ao estado. Podemos notar corretamente o comportamento claramente infantil de mobilizações estudantis e juvenis. Como crianças pirracentas quando contrariadas por um desejo não atendido, grupos estudantis cada vez mais apelam para a bizarrice no intuito de chamar atenção. Nos EUA, estudantes tocados pelo marxismo destruíram patrimônio institucional sob o pretexto de quererem uma “escola de qualidade”. Eles querem apenas consumir, mas não construir. Ademais, em outro lugar ainda [4], Rushdoony pontua a participação da obra de Freud nessa fonte de infantilização ao estabelecer a infância como o modelo básico e referência para o ser humano, em vez do homem adulto, Adão, que o cristianismo reconhece como o modelo básico.

Em segundo lugar, a destruição da instituição da família e do casamento. O casamento não é mais um Pacto entre Deus, um homem e uma mulher, mas um contrato entre um homem e mulher que é, antes, guiado pelo consumo. Depois da Segunda Guerra Mundial, Rushdoony observa que começou a surgir uma demanda por “manuais de casamento”, especialmente no âmbito sexual, que, finalmente, transformava o casamento numa relação de consumo de prazer. 


Experts, cientistas, sexólogos, substituíram os pastores e sacerdotes como autoridades no casamento”, escreve o teólogo. A técnica científica substituiu a fé Bíblica como fator-chave no casamento. Manuais de casamento agora eram manuais sexuais, e uma vida tão grandemente centrada no ato sexual tornou-se inconscientemente um trabalho para diversão, não para propósito. O Dr. Van de Velde insistiu, “Mas – o marido precisa exercer a maior gentileza, a mais delicada reverência!” A reverência foi transferida da igreja para a cama do casal.” [6]

Com a maior relativização dos valores, essa reverência logo seria também abandonada pelo consumismo de ambas as partes. Em poucas décadas, a educação para o casamento transformou-se em mera educação sexual, para atender ao desejo de consumo [de prazer]. Paulatinamente, as “descobertas científicas” começaram a substituir a moral religiosa no comportamento sexual, em todos os níveis de educação. 

Com o descrédito lançado contra a figura do pai e a relação entre homens e mulheres reduzida ao usufruto de apetites sexuais, temos a retirada completa da família como ente celular na estrutura social. Novos “modelos” de família começaram a surgir desde a segunda metade do século XX. Cada vez mais, mulheres, sozinhas, chefiavam famílias. Filhos são produzidos por inseminação artificial por mulheres que simplesmente não querem ter um relacionamento sério com um homem. A própria maternidade tornou-se apenas um produto de consumo, um “sonho” de mulheres solteiras que poderia ser resolvido com uma visita a um banco de esperma, prescindindo completamente de uma figura paterna. Por outro lado, os filhos também tornaram-se um empecilho para outros sonhos de consumo, como uma carreira bem-sucedida, ou viagens caras e vida de luxos. A famosa “liberdade” das feministas nada mais é do que a liberdade para a satisfação dos desejos de consumo. Tudo tornou-se objeto de consumo através de contratos.

E, ainda dentro dessa perspectiva, há a subversão da função educadora dos pais. Eles devem acomodar-se a um novo papel: não o de educar e inculcar valores objetivos nos filhos; não mais receberem honra; mas são apenas servos dos filhos, e protetores de seu “bem-estar”, proporcionando-lhes a satisfação que eles têm por “direito”.

"
Já que homens e mulheres se associam e têm filhos, a criação destes últimos torna-se apenas uma questão de direitos do consumidor, sem quaisquer grandes implicações morais, semelhante ao ato de escolher entre chocolate branco ou preto; e o Estado não pode discriminar entre formas distintas de associação e da criação dos menores, mesmo quando essa não discriminação é capaz de gerar o mesmo efeito que produziu a neutralidade anglo-francesa durante a Guerra Civil Espanhola." [7]

Em terceiro lugar, relações sociais descartáveis. Não apenas no âmbito sexual, mas em todos os outros. A relação utilitarista na esfera profissional (que é justa em termos bíblicos; vide a parábola dos talentos. É digno de nota que as relações trabalhistas são verdadeiramente contratuais) tendem a estender-se a outras esferas, onde laços são desfeitos quando se avaliam que são insuficientes. O prolongamento da expectativa de vida acarretará problemas no futuro, com um aumento no número de idosos, eventuais “fontes de despesas”. Não surpreendentemente, é possível encontrar quem defenda a eutanásia para casos de pessoas que sofreram graves acidentes, vítimas de doenças, ou qualquer um que assim deseje. 

Em quarto lugar, a busca do prazer a qualquer preço. Charles Melman reconhece uma ligeira mudança de mentalidade para a nova sociedade consumista (que ele chama de “nova economia psíquica”): 


"Foucault, Althusser, Barthes, Deleuze, que não proclamam mais o direito à felicidade, mas ao gozo. [...] não há mais nem autoridade, nem referência, menos ainda saber que se sustente. Estamos apenas na gestão, há apenas prática." [8]

A busca incessante por sensações é a ordem do dia. O espetáculo do absurdo e a quebra de tabus estão na moda. A famosa festa “Sensations” parece ser emblemática. Como Melman observou, “estamos numa sociedade em que a fabricação de objetos aptos a satisfazer os orifícios corporais se tornou uma espécie de exigência e obtém, evidentemente, a concordância coletiva. São objetos maravilhosos, capazes com efeito, de saturar até o esgotamento os orifícios visuais e auditivos. Fabricam-se hoje sons extraordinários que não são mais escutados com os ouvidos, mas com todo o corpo – o corpo vibra com os baixos que o atravessam como raios. São gozos fabricados, artificiais, que fazem parte dos produtos da nova economia psíquica.” [9]

As artes visuais agora tão dramáticas, de cores berrantes, também buscam atender a essa demanda por gozo visual. O body building é lembrado pelo psicanalista dentro do que ele entende por “gozos corporais”. Essa busca por gozo conduz inevitavelmente a uma maior demanda por drogas.

Agora, em quinto lugar, a destruição da alta cultura. Não há mais autoridade além do indivíduo, nem sentido na vida além da satisfação. As grandes obras da tradição ocidental mostram-se, assim, irrelevantes. A emergência desse novo homem consumidor precisa necessariamente romper com o passado e abandonar toda a sua herança, que seguia um sentido oposto ao adotado agora. Alia-se a isso a visão mecanicista de mundo, em que não há mais lugar para o sujeito. Lugar esse que a religião reserva. Sem autoridade e sem tradição, o novo homem também não tem razões para respeitar a alta cultura. O relativismo destruiu o respeito pela erudição e pela capacitação. A sociedade então começa a nivelar-se por baixo, abolem-se os padrões. Essa é a “Invasão Vertical dos Bárbaros” a que referiu-se Mário Ferreira dos Santos, e a conquista do “homem-massa” que o filósofo espanhol José Ortega y Gasset dissecou em “A Rebelião das Massas”. 

Em sexto lugar, há uma subversão do Direito. O Estado deixou de ser um ministro de Deus com objetivo de punir o mal e preservar a ordem social para transformar-se em um garantidor dos “direitos” dos indivíduos e grupos, e, portanto, um responsável pela satisfação dos mesmos. O Direito, ao pé da letra, é colocado a serviço do cumprimento da satisfação de todos os apetites. Aquilo que representa obstáculo à satisfação é entendido como injusto, moralmente incorreto e aqueles que defendem uma moralidade objetiva que regule os apetites são cassados pela “polícia do pensamento”. Melman reconhece isso:



“Tornou-se extremamente difícil fazer valer uma posição que não seja correta, ou seja, uma posição que não vá no sentido dessa filosofia implícita que quer que qualquer pessoa, seja qual for seu sexo, sua idade, possa ver seus votos cumpridos, realizados nesse mundo. Toda reflexão que busque discutir esse implícito é, a priori, barrada, interdita.” [10] 


O Direito agora deixa de servir a objetivos definidos para ser o estado-babá, a garantir saúde, educação, moradia, segurança, alimentação... e também o direito ao prazer.

Theodore Dalrymple, no livro “Nossa Cultura... ou o que Restou Dela”, percebeu que o povo britânico está tão influenciado por essa mentalidade que, quando há um corte de impostos no governo, isso é entendido como “um dinheiro extra para a diversão, como um pai que dá um trocado às crianças para o fim de semana.”. Isso conduz, segundo ele, à uma paralisação da ação, à degradação e à falta de respeito próprio e, pior de tudo, a mais um elemento destruidor de relações familiares. “[...] O Estado britânico retirou, de várias áreas importantes da vida humana, a responsabilidade que tem o indivíduo sobre si mesmo e sua família,” como disse Dalrymple.

Testemunhamos uma luta ferrenha pela legalização das drogas nos nossos dias. Sem valores morais absolutos, o desejo de consumo não pode mais ser interditado pelo Estado. Como Dalrymple percebeu, há um pressuposto na filosofia de John Stuart Mill (algo como, "faça o que quiser desde que não prejudique ninguém"). Esse é, nas palavras dele, um “fundamentalismo filosófico”. Ele diz:


“(...) em outras palavras, não temos nada em comum, a não ser nosso acordo contratual para não interferirmos na vida uns dos outros, enquanto prosseguimos em busca de nossos prazeres privados.” [11]


E com a abolição dos tabus e do modelo de família, como vimos há pouco, estamos testemunhando o absurdo da abominação quando o Comitê de Ética da Alemanha começa a discutir o incesto como um “direito fundamental de parentes para a autodeterminação sexual”. 

Em sétimo e último lugar, vemos o consumismo afetar as igrejas cristãs. Deus agora não é mais servido, mas o servidor de um homem consumidor e repleto de apetites. A Teologia da Prosperidade cresceu porque teve uma demanda que a alimentasse. Deus deve nos dar carros, pagar contas, resolver problemas, realizar “sonhos”... São os crentes quem “determinam” o milagre, não Deus. A transferência de soberania de Deus para o homem é tristemente visível em nossos dias dentro da própria igreja.

É preciso dizer que Melman, que citamos algumas vezes, não é sequer cristão, mas um humanista, e não considera toda essa degradação como motivo suficiente para que o papel da religião seja repensado seriamente na sociedade. Ele conclui sua análise crítica do caos pós-moderno sonhando com um novo humanismo utópico, em que o abandono da religião não precise conduzir à destruição de toda ordem civil, o que é evidentemente um romantismo daqueles que Francis Schaeffer cansou de denunciar como irracional. Não há razão para o homem sem Deus viver em ordem social, promover o progresso ou respeitar a vida. 

Erramos. O Ocidente errou abominavelmente. Não somos deuses. As relações humanas são pautadas a partir do Pacto que Deus tem conosco, onde a moral nos foi Revelada. Ela não estabelece-se de acordo com nossa vontade e conveniência. Como crianças mimadas, nossos contemporâneos não querem mais produzir. A demanda ilimitada por consumo cada vez mais deixa dívidas financeiras para as gerações futuras,o que verifica-se em todas as nações, até as mais ricas. Estamos abrindo buracos e deixando a pobreza como herança pra nossos filhos. Vivemos dias terríveis e o consumismo é um demônio faminto a devorar tudo o que construímos. Não era assim que os puritanos pensavam. Nós devemos viver inteiramente para a Glória de Deus e construir um mundo por amor a Ele, tão somente.

“Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém.” (Rm 11:36) 

Diante de Deus, temos apenas dívidas, ofensas, pecados. Deus não nos deve nada.  A morte entrou no mundo e nós a merecemos. É a Graça de Deus quem nos sustenta, e tão somente ela. O que podemos fazer pra salvar o Ocidente do colapso? Reconhecer que só ELE é Senhor!

"A revolução começou com a declaração dos direitos do homem, e só terminará com a declaração dos direitos de Deus." (Visconde de Bonald)

Notas:
1.  Theodore Dalrymple, “Nossa Cultura... ou o que Restou Dela”, p. 38.
2.     Charles Melman, “O Homem Sem Gravidade: Gozar a Qualquer Preço”, p. 79.
3.     R. J. Rushdoony, “Sovereignty”, p. 266.
4. ver R. J. Rushdoony, “Revolt Against Maturity”, p. 5-12.
5. R. J. Rushdoony, “Sovereignty”, p. 111.
6. Charles Melman, “O Homem Sem Gravidade: Gozar a Qualquer Preço”, p. 38.
7.  Theodore Dalrymple, “Nossa Cultura... ou o que Restou Dela”, p. 38.
8.     Ibid., p. 40.
9. Ibid., p. 32.
10.   Charles Melman, “O Homem Sem Gravidade: Gozar a Qualquer Preço”, p. 38.
11.   Theodore Dalrymple, “Nossa Cultura... ou o que Restou Dela”, p. 238.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

NEUTRALIDADE ou UMA RESPOSTA A RODOLFO SOUZA por Fabrício Tavares


NEUTRALIDADE ou UMA RESPOSTA A RODOLFO SOUZA
por Fabrício Tavares

Qualquer um que se atente ao atual cenário teológico brasileiro sente um irreprimível anseio por glorificá-Lo em virtude dos pensadores, teólogos, pregadores e mestres que têm surgido no meio reformado, com todo afã e zelo por restaurar, mediante a pregação bíblica, a Igreja brasileira. Com efeito, mesmo em meio às trevas da mistificação religiosa e da prestidigitação ideológica, Deus tem nos concedido servos fiéis que nos apresentam raciocínios estruturados em pressupostos bíblicos.
Por outro lado, conforme já dito, uma profunda miséria intelectual aliada ao desprezo dos parâmetros morais verruma os ossos de qualquer indivíduo que não almeje sucumbir em meio às vagas do irracionalismo e niilismo de nossa cultura contemporânea. Ora, a questão do viés ideológico apontado nas questões do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) é já assunto gasto, esgarçado e, como não poderia deixar de ser, satirizado de forma resignada e ressentida. No entanto, recentemente nos deparamos com o seguinte comentário do sr. Rodolfo Souza, compartilhado na página do admirável pr. Guilherme de Carvalho:


Este é o meu posicionamento em relação à questão da presença ou não de viés doutrinário na elaboração do ENEM 2015. Formei esta opinião após ler e resolver as questões de humanas e pensar sobre o quadro geral da prova e das discussões geradas por esta de sábado para hoje:
1) Como toda elaboração de conteúdo e avaliação nas áreas de humanas (sobretudo sociologia, história e filosofia), existe um predomínio de certo tipo ideológico na elaboração das questões do ENEM 2015. E não poderia ser diferente! Pois em humanas não existe neutralidade, seja na construção dos conteúdos, na escolha dos fragmentos de textos e tópicos abordados, ou na direção intencionada da resposta por parte do avaliado. Na prova de humanas do ENEM/2015 existe claramente um posicionamento geral com um viés progressista em vários temas como: crítica à globalização, crítica ao capitalismo, conexão entre a crise de 2008 e a crise no Brasil, crítica ao individualismo brasileiro, crítica à desigualdade gerada pelo capitalismo na China, identificação de questões de gênero com o dualismo corpo/identidade sexual, crítica ao "ocidentalismo", dentre outros (sem tocar a relevante temática da redação). Negar isso é de uma inocência positivista que pode muito bem ser considerado um artefato arcaico no museu metodológico moderno para o entendimento da área de humanas. Mas sei que muitos ainda seguem nesta direção. Os memes colocando Aquino, Simone e Hume como se fora expressão de pluralidade de ideias, no âmbito geral da prova, está longe de ser verdadeiro, mas demonstram como o mito da neutralidade ainda é forte na mente do brasileiro.
2) A crítica de grande parte dos conservadores (grupo do qual também me excluo por princípio, mas que tem polarizado a discussão corrente) nas redes sociais é exagerada e carente de embasamento crítico, pois não reconhece uma tendência das humanas em geral, de viés claramente progressista, não podendo ser lida, por esta razão, como um projeto exclusivo de doutrinação ideológica do governo PT. Ou seja, qualquer prova de humanas apresenta esta tendência que encontramos no ENEM. Nos EUA uma pesquisa recente identificou que de 07 acadêmicos da área de humanas (em sociologia a proporção era de 21/01) apenas 01 tinha tendências conservadoras. E creio que no Brasil esta média deve ser ainda maior a favor do progressismo (o que não é um problema em si, a não ser que se faça passar como posição livre de pressupostos, o que já é desonesto no âmbito educacional). Isto gera outro ponto, o de que quase não há pesquisa e material didático ou publicações específicas de viés conservador para as humanas com rigor metodológico e embasamento empírico. Ou seja, um equilíbrio de perspectivas neste quesito exigiria um movimento imenso de articulação cultural, produção de conhecimento e consolidação de um viés distinto do progressista para a área de humanas, o que não está no horizonte mais próximo. Por isso muitos conservadores preferem amaldiçoar as humanas em vez de reconhecer a ausência do reflexo ideológico próprio na produção de cultura em determinado campo. Alguns teóricos estão começando a denunciar este domínio das humanas por um viés específico como Christian Smith (mesmo não tendo uma direção conservadora) nas obras "The Sacred Project of American Sociology", onde denuncia a "confessionalidade" liberal da sociologia norte-americana, e a obra "What Is a Person?: Rethinking Humanity, Social Life, and the Moral Good from the Person Up", onde propõe uma discussão sobre os pressupostos por trás das teorias sociológicas, argumentando a favor de uma visão mais completa de ser humano e as consequências disto para uma teoria da ação social.
3) Os gritos de exigência de neutralidade nas provas de humanas do ENEM, ou tentativas de forçar pela via legal a neutralidade no ensino de humanas é, a meu ver, negar a origem real do problema, qual seja: reconhecer a confessionalidade na construção do conhecimento e as direções enviesadas das mesmas em sua configuração institucionalizada na área educacional mais ampla. Ou seja, enquanto uma instituição social concentrar a avaliação de conteúdos de humanas ao mesmo tempo em que não reconhece o elemento "confessional", teremos avaliações de caráter ideológico passando por mera neutralidade do conhecimento. A resolução para esta questão passaria por uma demanda de maior pluralidade por parte das instâncias do Estado, ou pela expressão mais plural de confessionalidades em instituições "livres" da tutela do Estado no que tange o acesso ao Ensino Superior, algo que estamos bem distantes de encontrar na realidade brasileira.

Particularmente, não conheço o sr. Rodolfo, e só cheguei ao conhecimento de seu texto mediante a página do pr. Guilherme de Carvalho. Sendo assim, nossos breves comentários se pautam exclusivamente nas ideias expostas acima e, mais especificamente, na apreciação do pr. Guilherme, que, a nosso ver, foi precipitada ou equivocada, gerando em alguns dos setores reformados certa perplexidade não de todo gratuita. Ora, o pr. Guilherme é um dos nomes mais proeminentes no que concerne à divulgação do pensamento neocalvinista, especialmente a filosofia dooyeweerdiana e a crítica cultural-artística de Rookmaaker. Reiteramos, então, que nosso comentário se restringe à publicação acima, a qual, segundo nosso entender, interpreta erroneamente pressupostos corretos. 

Primeiramente, o que nos chama atenção é o seguinte excerto: 


“Como toda elaboração de conteúdo e avaliação nas áreas de humanas (sobretudo sociologia, história e filosofia), existe um predomínio de certo tipo ideológico na elaboração das questões do ENEM 2015. E não poderia ser diferente! Pois em humanas não existe neutralidade, seja na construção dos conteúdos, na escolha dos fragmentos de textos e tópicos abordados, ou na direção intencionada da resposta por parte do avaliado.”

É justamente nas obras de Dooyeweerd e Vollenhoven (cujo artigo, por nós traduzido, pode ser encontrado neste link) que a desconstrução da neutralidade tem seu maior arsenal teórico. Partindo do conceito bíblico de “coração” (לב, leb), o centro da existência humana, o núcleo indiviso e substancial do indivíduo, em nítido contraste com a noção cartesiana dualista do “fantasma na máquina”, esses pensadores compreenderam que cada ação, pensamento ou vontade humana possui, subjacente a si, determinada cosmovisão, de maneira que, em última análise, os esforços intelectuais, morais e volitivos serão embasados e direcionados por essa visão pré-teórica. Nos dizeres de Vollenhoven, no seu artigo “O uso das Escrituras e a filosofia” (que, querendo em Deus, em breve publicaremos): 

E então crescemos e passamos a conhecer nossos pais, nossos irmãos e irmãs, nosso ambiente: primeiramente o berço, em seguida, o quarto, logo, o jardim, a rua, os amigos, a escola.
Tudo isso se configure como conhecimento não-científico. Eis, portanto, a beleza disto: esse conhecimento não é uma fase passageira. Muito de nossa infância passa, todavia, o conhecimento não-científico permanece: conhecemos um ao outro como homem e mulher com o conhecimento não-científico; realizamos a maior parte de nossos afazeres com esse mesmo conhecimento.
Gradualmente uma visão se desenvolve, uma unidade da contemplação, que não é, de modo algum, uma ciência nem, portanto, uma filosofia, mas sim uma biocosmovisão: a qual as pessoas chamam ora de “humanismo”, ora “catolicismo”, “luteranismo” e “calvinismo”.

E mais adiante conclui: “A filosofia é, portanto, a ciência geral; mas não uma bacia de captação. Ora, aquilo que a cosmovisão é para o conhecimento não-científico, a filosofia é para o conhecimento científico”. Primeiramente, é interessante notar que embora tenham apresentado de forma magistral a proeminência da cosmovisão sobre o homem na sua totalidade, os neocalvinistas não foram os primeiros a confrontarem a pretensa objetividade e neutralidade das ciências. Kant, embora merecedor de várias críticas (já que sua ideia gnóstica de autonomia acabou por culminar na autosoteria dos movimentos protestantes liberais e experimentais ou carismáticos), já dizia que a ciência não pode ser objetiva, já que o cientista é um sujeito. Curiosamente alguns experimentos da mecânica quântica apontam para a influência mesma do observador sobre o objeto analisado. 

Observando mais a fundo, o mito da neutralidade é evidente, e, conforme o sr. Rodolfo mencionou, até mesmo a seleção dos excertos segue um padrão ou intenção. E mesmo um filósofo católico como Milton Japiassu, Michael Polanyi ou ainda Wolfgang Smith já observaram isso. 

Todavia, há um erro de categorias aqui: é certo dizer que, substancialmente, sempre iremos nos deparar com o background ou cosmovisão dos autores em seus escritos; todavia, os conteúdos das questões do ENEM, além de serem essencialmente progressistas, são também estruturados formalmente como aparato ideológico. Ora, certamente o conteúdo – a substância por assim dizer – de Mein Kempf é execrável, e a forma na qual se estrutura é política, partidária e ideológica. Se avaliássemos somente o conteúdo irrisório e absurdo dos Protocolos dos Sábios de Sião, talvez pudéssemos considerá-lo como um livro inócuo, politicamente inofensivo e desprezível; no entanto, o tom conspiracional e a polimorfia do mal nele representados se configuram como a forma mediante a qual se busca promover o antissemitismo. Em outras palavras, substancialmente o livro é insignificante, mas sua configuração interna e a intenção com a qual foi elaborado são malignas.

Nesse sentido, embora não possamos (como já disse Vollenhoven) cair nas armadilhas do binômio pagão forma-conteúdo, também não nos é possível negar a inerência desses dois conceitos que formam a totalidade da estrutura e a condição mesma de existência do objeto. Ademais, negar a tensão entre produção e intenção é ignorar simultaneamente dois planos da criação. Nos dizeres de Albert M. Wolters, temos a estrutura (da qual a filosofia se ocupa) e a direção (da qual, por seu turno, a teologia se ocupa) das coisas. A primeira diz respeito às coisas tais como elas são; a segunda, para onde as coisas se dirigem. O próprio Dooyeweerd, criticando o conceito aristotélico de substância, cunhou o termo traduzido por “sentido”. 

Consequentemente, negar a intenção mediante a qual se elabora uma prova de conteúdo profundamente ideológico, moldada num formato doutrinário (basta analisar as questões de múltipla escolha, nas quais, em meio às densas trevas de opções pífias ou irracionais, a alternativa correta e de teor marxista reluz como uma aurora), com intenções partidárias demonstra uma compreensão deficiente dos mecanismos internos do totalitarismo. 

Passando ao segundo ponto elencando pelo sr. Rodolfo, ele diz não se coadunar com o pensamento conservador. É lícito admitir que nos encontramos no outro lado do espectro político, pois embora saibamos que nenhuma tradição política se enquadra ou identifica perfeita e completamente com o Reino de Deus, pode-se afirmar de maneira tranquila que o conservadorismo, com seus princípios da prudência e da continuidade das tradições, não somente não se opõe ao cristianismo (como é o caso do socialismo “científico”) como, em alguns aspectos, se conforma ao pensamento cristão. Basta citar aqui os nomes de Edmund Burke, Rousas John Rushdoony, Russell Kirk, T.S. Eliot e G.K. Chesterton. Curiosamente, o título da aula de Roger Scruton no Coleridge Lectures era “Ame teu próximo”, demonstrando como o conservadorismo parte primordialmente do amor aos que já se foram (a “democracia dos mortos” nas palavras de Burke), na alegria com os homens do presente e na preocupação terna para com os que ainda virão. 

Não obstante, tal questão não pertence ao nosso interesse presente, pois o que de fato nos chama a atenção é a citação da pesquisa que demonstra que a maioria dos acadêmicos possuem tendências progressistas, numa proporção descomunal quando comparada aos acadêmicos conservadores. Desconhecemos essa pesquisa e seus dados completos; mas partindo do pressuposto de que seja real (e não há razão alguma para duvidar disso), trata-se apenas de uma demonstração da efetividade do marxismo cultural, que hodiernamente já dominou a academia quase por inteiro. O que, ironicamente, acaba sendo evidência para a ideia de que as provas de ingresso universitário são simplesmente mapeamentos e preliminares ideológicas, pois há duas alternativas: ou a academia é um centro de marxização do pensamento, de modo que a maioria dos que nela adentram são doutrinados mediante todos os instrumentos cognitivos e sociais disponíveis, transformando-se em “agentes de transformação social”, isto é, idiotas úteis; ou coincidentemente a academia tem uma predileção por professores progressistas (o que também explicaria a ocupação da maioria das cátedras). 

O mais assustador, todavia, é a seguinte observação feita pelo sr. Rodolfo, que revela como nosso país se encontra inconsciente das várias tradições do pensamento político conservador: 


“Isto gera outro ponto, o de que quase não há pesquisa e material didático ou publicações específicas de viés conservador para as humanas com rigor metodológico e embasamento empírico. Ou seja, um equilíbrio de perspectivas neste quesito exigiria um movimento imenso de articulação cultural, produção de conhecimento e consolidação de um viés distinto do progressista para a área de humanas, o que não está no horizonte mais próximo.”

Sugiro ao sr. Rodolfo uma breve análise das publicações da editora É Realizações, ou a Vide Editorial ou, no meio reformado, a Monergismo. Apenas para citar alguns nomes do pensamento conservador já publicados no Brasil:
T.S. Eliot, Northop Frye, Roger Scruton, Theodore Dalrymple, Eugene Webb, Eric Voegelin, René Girard, Charles Taylor, José Guilherme Merquior, Richard Weaver, Gary North, Christopher Dawson, Thomas Sowell, Michael Oakeshott, Mário Ferreira dos Santos, Ortega y Gasset, Carl Schmitt, Bernard Lonergan, Edmund Burke e Russell Kirk.
Há, inclusive, um selo da É Realizações denominado irônica e magistralmente de “Abertura Cultural”, aludindo ao estreitamento intelectual de nossa atual intelligentsia. 
Tratando de rigor metodológico, não há como comparar a seriedade e exatidão do pensamento voegeliano com as verborragias de um Deleuze ou uma Chauí; de semelhante modo, é impensável cotejar a maestria do estilo de Ortega y Gasset com as pantomimas prestidigitadoras de Foucault. Em suma, se há um grupo de pensadores com rigor metodológico são esses supracitados, representantes da tradição conservadora. Basta analisar a obra Insight: um estudo do conhecimento humano, de Bernard Lonergan, que vai se edificando paulatina e solidamente.

por Fabrício Tavares.


Notas do dono do blog:
1. Parece haver um menosprezo perigoso da ala progressista da igreja evangélica para com a relevância do conhecimento de autores de guerra política e conflito cultural como Antonio Gramsci. Para Gramsci, antigo membro do Partido Comunista Italiano, o avanço do Comunismo no Ocidente não deveria mais ser feito através do conflito armado e da tomada do poder a fim de só depois estabelecer a hegemonia, como era o estilo de Lenin. Para Gramsci, o processo deve fazer o caminho inverso: primeiro conquista-se a hegemonia da cultura, para só em seguida alcançar-se o poder. Isso seria necessário porque a influência dos valores cristãos na consciência ocidental fizera-se um obstáculo para o avanço do Comunismo, como notaram alguns comunistas depois do fim da Primeira Guerra, que perguntaram-se, espantados, por que razão os proletários de cada nação preferiram unir-se às chamadas "elites" de seus países, em vez de unirem-se internacionalmente. Nesse sentido, Gramsci desenvolveu uma estratégia que consistiria numa "tomada das instituições", das quais a universidade seria provavelmente a principal. O propósito seria, através da Neurolinguística e do "funil editorial" (evitar que livros contrários à visão ideológica do Partido Revolucionário fossem publicados ou reconhecidos), alterar o "senso comum", destruindo toda a noção histórica e especialmente cristã que forma a visão de mundo ocidental. E aqueles que são doutrinados na visão Comunista saem das universidades como "intelectuais orgânicos", um conceito amplo que inclui artistas, professores, jornalistas, etc. Antonio Gramsci é um velho conhecido pelas esquerdas do Brasil.

2. Não trata-se apenas, como alguns progressistas sugerem, de um debate sobre os autores em si. É necessário entender que as obras dos tais têm o intuito de causar uma crise cultural contra as instituições do país, e também de todo o Ocidente. Eric Hobsbawn, famoso historiador marxista dentro das universidades brasileiras, por exemplo, firmou a acusação de que os EUA são "imperialistas", o que tem sua razão de ser no campo econômico, o que torna o termo apenas uma adequação metafórica.. Contudo, ele nada fala sobre o verdadeiro "imperialismo soviético". A ex-URSS financiou cerca de 30 golpes de estado no séc. XX, e seu território de influência aumentou substancialmente. Em uma entrevista, Hobsbawn admitiria que o genocídio perpetrado em países comunistas seriam justificáveis caso o objetivo da "sociedade comunista" fosse alcançado. Portanto, estamos vendo a formação de uma suposta "consciência crítica" dentro das escolas e universidades, que não tem outro propósito além de criticar tudo, e fazer do socialismo a única opção messiânica para a civilização humana, a despeito de seu fracasso retumbante em todas as tentativas do séc. XX.

3. Assim que assumiu o governo, o Partido dos Trabalhadores começou uma grande reforma no ensino do país. O próprio Enem é uma de suas criações. A Ideologia de Gênero começou a ser implantada nas escolas, com a promoção de muitos trabalhos, que incluíam o antigo programa de "inclusão social" apelidado de "kit gay". Estamos, portanto, lidando com fatos. O PT é diretamente relacionado ao processo de implantação de alguns temas que não eram alvo de debates até sua ascensão. A própria Ideologia de Gênero, aliás, não possui nenhum "rigor empírico", como o sr. Rodolfo sugeriu que houvesse a fim de justificar a ausência do pensamento conservador no conteúdo da prova.

4. Para não sobrar dúvidas do viés ideológico que exclui o debate com opiniões contrárias, veja o comentário de Sérgio Nunes publicado no Facebook:


"Sobre o ENEM. Julguem por si mesmos.
Dei uma breve analisada nas 45 questões de ciências humanas, e separei alguns autores citados e temas mencionados. Será que os jovens estão sendo treinados para analisarem as diversas visões de mundo ? Ou apenas uma ?
A questão aqui não é contradizer ou discutir a opinião de algum autor específico, ou ainda algum tema, mas mostrar que apenas um lado é discutido. Seguem alguns citados e alguns temas:
- Nada como começar com o filósofo Slavoj Zizek, uma das estrelas do marxismo atual, que nesta prova, emergiu com um texto propondo um ato de alteridade, comparando a ação do exército americano com o terrorismo do Talibã.
- David Harvey, geógrafo marxista que propõe a ocorrência de um cataclisma no sistema de produção capitalista (não especificamente na questão desta prova).
- Karl Mannheim, muito influenciado pelo marxismo, apesar de posteriormente se afastar da hipótese de violência revolucionária. Estudou em um Grupo de estudos de Lukács. Na questão, obviamente propõe que a visão individual é condicionada pela sociedade.
- Simone de Beauvoir, com suas ideias feministas, arguida
por ter sido ao mínimo colaboracionista com o regime nazista, com algumas ideias que podem associar-se com pedofilia, e misandria.
- Robert Reich, democrata americano, que contra todas as evidências empíricas, propõe uma hipótese de relação inversamente proporcional entre capitalismo e democracia. Para ele: "tax are the price we pay for a civilized society". Se posiciona criticamente à teias globais.
- Milton Santos, geógrafo com posições anti-globalização, anti-capitalismo, anti-burguesia, pró-socialismo.
- Agostinho Neto, antigo governante de Angola de partido de esquerda, inicialmente marxista, posteriormente centro-esquerda.
- Maria da Glória Gohm, professora de educação da Unicamp, defensora dos Conselhos Populares e do MST.
- Paulo Freire, que dispensa apresentações, um dos pilares da falha educacional no país, com sua educação libertadora, que não educa e nem liberta.
- Sidney Chaloub, historiador da Unicamp, que afirma: " O governo Dilma foi exemplar nesses quesitos. Por conseguinte, a hipocrisia de caluniá-lo por isto é especialmente danosa à democracia e ao atual processo eleitoral".
- Ali Masrui, apesar de crítico do comunismo na África, porém tb é crítico do capitalismo e neoliberalismo no continente, com posições contra Israel.
- Jacques Le Goff que considerava-se "um homem de esquerda".
- Muniz Sodré que integra(ou) o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social do governo, votou em Lula, apesar de tecer algumas críticas recentes.
- Porto Gonçalves, membro do Grupo Hegemonia e Emancipações do Conselho Latino-americanos de Ciências Sociais (Clacso). Colunista (ou ex) da Revista Carta Maior.
- Nicolau Sevchenko, que afirmou sobre a elite: "esse processo como uma espécie de estratégia dos grupos dominantes para manter o sistema de privilégios nos quais estão encastelados desde a colônia". Fala a favor de grupos civis que são críticos a biotecnologia.
- Wlamyra Albuquerque, pesquisadora que dentre seus artigos, escreveu para revista Perseu, da Fundação Perseu Abramo do
Partido dos Trabalhadores (PT).
- Lilia Morics Schwarz, professora da fflch, também empática ao conceito de conflito de classes e preconceitos, favorável a cotas.
- Ziraldo, que aparece com uma charge, não sendo demais afirmar que integrou comitiva com a Dilma, e diz que a ama.
- Sergio Buarque de Holanda , vinculado à esquerda .
- James Rachel , com tendências utilitaristas , defensor de ações afirmativas e ideias vegetarianas .
- Cita a publicação Caros Amigos, de tendência óbvia.
- De formação clássica, os únicos autores citados que detectei foi David Hume e São Tomás de Aquino.
- Em relação aos temas várias questões ambientais, a proposição de grupos criminosos como o mst como forma de atuação democrática, questiona a direção econômica da China como oposição à extinção de classes, aborda a crise de 2008 com epicentro nos EUA esquecendo da crise atual com epicentro AQUI mesmo.

Ressalto que a questão no momento (isto pode ser feito em momento oportuno) não é combater qualquer um dos aspectos acima, uma vez que os estudantes devem conhecer todos os lados e abordagens, mas sim mostrar que os estudantes tem tido acesso apenas a uma visão de mundo, sendo tolhidos de maiores incursões em uma cultura mais geral. Mostrar também mais uma ingerência ideológica governamental na educação dos jovens."

segunda-feira, 21 de setembro de 2015


O PROBLEMA DE UMA DEMOCRACIA SEM DEUS
por Antonio Vitor.

A democracia hoje é uma referência comum em debates políticos no que diz respeito às liberdades civis. Não é exagero dizer que, pra muitas pessoas, ela tornou-se um ídolo, quase sempre incompreendido, e dona de uma suposta superioridade inquestionável. É certo que a democracia americana tem uma clara contribuição dos princípios reformados e que a Reforma Protestante tem uma participação direta no desenvolvimento dos direitos civis da modernidade. Abraham Kuyper considera a democracia uma verdadeira benção de Deus. No livro "Calvinismo", ele escreveu:


"A questão sobre como aquelas pessoas, que pela autoridade divina devem ser revestidas de poder, são indicadas, segundo Calvino não pode ser assegurado semelhantemente para todas as pessoas e para todos os tempos. E, contudo, ele não hesita em afirmar, num sentido ideal, que as condições mais desejáveis existem onde o próprio povo escolhe seus próprios magistrados. Onde existe uma condição como esta, ele conclui, o povo deveria agradecidamente reconhecer nisto um favor de Deus, precisamente como tem sido expresso no preâmbulo de mais de uma de suas constituições; - "Graças ao Deus Todo-Poderoso que deu a nós o poder de escolher nossos próprios magistrados." Em seu Comentário sobre Samuel, Calvino entretanto admoesta tais povos: 'E vós, Ó povos, a quem Deus deu a liberdade de escolher seus próprios magistrados, cuidem-se de não se privarem deste favor, elegendo para a posição de mais alta honra, patifes e inimigos de Deus.' 
Posso adicionar que a escolha popular é bem sucedida, naturalmente, onde nenhum outro governo existe, ou onde um governo existente se enfraquece. Onde quer que novos Estados tem sido instituídos, exceto pela conquista ou pela força, o primeiro governo sempre tem sido instituído pela escolha popular; e assim também onde a mais alta autoridade tem caído em desordem, quer pelo desejo de fixação de direito de sucessão, quer através de revolução violenta, sempre tem sido o povo que, através de seus representantes, reivindicou o direito de restaurá-lo. Mas com igual resolução, Calvino afirma que Deus tem o poder soberano no modo de administração de sua providência, para tirar de um povo esta condição mais desejável, ou nunca concedê-la absolutamente quando uma nação é inapta para ele, ou, por seu pecado tem sido completamente privada da benção." 

A Reforma foi muito abençoada até determinado momento; a liberdade civil e a prosperidade seguiram os rastros dos teólogos reformados ortodoxos. Contudo, há um grande perigo quando as leis de um povo não estão pautadas na Lei transcendente de Deus, e sim na soberania popular, que é o entendimento de democracia que vem sendo defendido especialmente no séc. XX. 

No paganismo do Império Romano, a soberania estava no Imperador. Na Baixa Idade Média, havia uma disputa entre o papado e os reis absolutistas por soberania. Na Reforma Calvinista, Deus é o soberano sobre o Estado e sobre a Igreja. A soberania popular nasce - para explicar de forma grosseira um processo histórico dono de certa complexidade - como uma proposta de defesa humanista contra a tirania e contra a soberania, tanto dos absolutistas quanto da igreja. Tornar-se-á evidente que esse conceito de democracia não pode ser considerado cristão, embora a liberdade civil seja cristã e a democracia americana tenha emergido como fruto de uma luta evangélica que deixou seus mártires. Margaret Thatcher, membro de uma igreja metodista, durante um discurso para a "General Assembly of the Church of Scotland", afirmou que


"Quando Abraham Lincoln falou em seu famoso discurso de Gettysburg em 1863 sobre "governo para o povo", ele deu ao mundo uma definição nítida de democracia que desde então tem sido selvagem e entusiasticamente adotada. Mas o que ele anunciou como uma forma de governo não era em si mesmo algo Cristão, já que em nenhum lugar na Bíblia a palavra 'democracia' é mencionada. Idealmente, quando Cristãos reúnem-se, como Cristãos, para tomar conselho juntos, seu propósito não é (ou não deveria ser) determinar qual é a mente da maioria, mas qual é a mente do Espírito Santo - algo que deve ser bem diferente."

Abraham Lincoln era um humanista. Seu governo foi marcante na história dos EUA por diversos motivos. Quando os revolucionários americanos construíram o sistema americano - que na verdade era, no período colonial, o modelo britânico de um sistema feudal -, influenciados pelos trabalhos de outros puritanos, incluindo John Knox, eles não tinham em mente a ideia de uma "soberania popular," mas o desejo da manutenção de uma ordem Cristã com liberdade civil diante de um Estado limitado. O Rev. John Cotton, um dos grandes fundadores do sistema americano, tornou básica para o governo colonial "a premissa que a lei e a ordem piedosa significam poder limitado e liberdade limitada." Mas o sistema americano foi paulatinamente subvertido durante os séculos.

A Constituição Americana foi escrita para um povo fortemente comprometido com o Cristianismo, e ela não tem estabilidade de outra forma. A limitação estatal era equilibrada pelo freio moral das igrejas locais. Na Reforma Calvinista, a liberdade civil era uma liberdade sob Deus, dentro dos limites da verdadeira religião Cristã, donde a Palavra de Deus soberana impunha as funções específicas para o Estado e para a Igreja, cada qual com seu limite. Mas para os revolucionários franceses, a liberdade significava outra coisa. Guillaume Groen Van Prinsterer, historiador calvinista e estadista holandês, percebeu, em seu livro "Incredulidade e Revolução", que a premissa das revoluções modernas é um conceito ateísta de liberdade. Não é de forma alguma uma liberdade Cristã, mas antes uma liberdade que finalmente rebelaria-se contra a própria ordem moral de Deus. Se o Rev. John Cotton enfatizava uma liberdade limitada e um poder limitado, as demandas humanistas pedem ao mesmo tempo uma liberdade ilimitada e um poder ilimitado, ainda que sua contradição seja explícita. O dualismo desses dois conceitos antitéticos de liberdade está fortemente presente nos debates atuais entre Conservadores e Liberais nos EUA. Os Conservadores buscam interpretar a Constituição Americana com a intenção original dos seus fundadores, cristãos. Os Liberais procuram interpretar a mesma Constituição removendo os conceitos originais dos termos nela escritos. Dessa forma, o atual presidente Barack Obama pode dizer que o casamento gay é coerente com os "ideais americanos," quando na verdade ele nunca foi pensado pela América cristã original.

Nesse contexto, R. J. Rushdoony, especialista na relação entre Igreja e Estado, tece uma pertinente crítica contra o conceito de democracia predominante hoje, mostrando que, uma vez que ela baseia-se na soberania popular, e não na soberania de Deus e de sua Palavra-Lei, ela torna-se ímpia, totalitária e uma maldição para os homens.

Por obedecer sumamente à "vontade do povo", a democracia não serve necessariamente ao princípio de justiça, mas transforma toda vontade da maioria em "justiça" e lei, enquanto a justiça objetiva, a verdadeira, simplesmente deixa de existir. Ela dá lugar à "justiça" relativa, fruto da convenção e conveniência humanas. Nesse modelo político, tudo aquilo que for contra a vontade do povo passa a ser considerado crime. O problema é que os homens são pecadores rebeldes, e, portanto, a vontade da maioria geralmente tende a harmonizar-se com a injustiça, não com a justiça. Dessa forma, a maioria pode decidir roubar a minoria e o roubo torna-se-á legalizado, como vemos no Socialismo.

Por causa dos princípios que norteiam a mentalidade humanista, toda noção objetiva de justiça passa a ser considerada injusta quando ela fere o conceito de liberdade autônoma do ateísmo e quando, consequentemente, fere a vontade "soberana" do indivíduo - que não é mais indivíduo, mas conjunto. É por isso que Deus é entendido como "opressor" por aqueles de mentalidade humanista, por trazer princípios de justiça que não são a vontade da maioria. O resultado é uma confusão sem fim. 

Um exemplo claro disso pode ser visto nas acusações lançadas pelo movimento LGBT contra o pastor pentecostal Silas Malafaia em março desse ano, na ocasião da campanha pelo boicote contra a marca de perfumes "O Boticário." Poucos meses antes, Elton John lançou uma campanha de boicote contra a marca "Dolce & Gabbana" por causa de uma declaração de seus donos - a saber, um "casal" homossexual - contra a adoção de crianças por "casais" gays. Mas para os que tomaram as dores do movimento homossexual, apenas Silas Malafaia pode ser considerado "opressor" e "antidemocrático", não Elton John. Para a maioria dessas pessoas, esse julgamento não é fruto de uma malícia política consciente, mas da conclusão de seus pressupostos. De fato, Saul Alinsky e outros ideólogos de esquerda inventaram a "tolerância intolerante" e muitos dos esquerdistas que sustentam esse discurso são realmente cínicos de marca maior, guardando em suas mentes o objetivo consciente de destruir a cultura ocidental. Para os demais, os idiotas úteis da rev. gramsciana, trata-se do pressuposto religioso do humanismo sendo exposto. Para eles, a liberdade autônoma é o únivo bem moral a ser preservado. A Lei de Deus, por limitar o comportamento humano, é, portanto, contra a vontade soberana do indivíduo livre, e contra seu poder de auto-determinação, que ascendeu mais fortemente desde o pós-Guerra com o existencialismo de Sartre. O Estado humanista é servo do indivíduo, ou da maioria, e todas as obrigações morais reais são anuladas em favor de uma demanda cada vez mais exaustiva de direitos, direitos e mais direitos. A premissa agora é: "seja feita a minha vontade." E essa vontade é a vontade de pecar. A democracia sem a orientação da Lei de Deus tende a transformar o pecado em lei. O homem deixa de ser responsável por seus atos e passa a ser vítima das condições externas, precisando do amparo do Estado, o justiceiro e justificador. Em outras palavras, o Estado é o messias do humanismo.

A democracia sem a soberania de Deus não apenas cria uma nova justiça, mas enxerga a si mesma como a encarnação da justiça. Ela é inimiga da Justiça de Deus e da ordem criacional, e os países que sustentam-na já estão sofrendo com a ira divina há algum tempo. Em nome da democracia, os revolucionários estão atacando a Igreja Cristã que a fundou. Eis o preço que a Igreja está pagando por ter abandonado a liderança intelectual no Ocidente e por ter se tornado irrelevante para a cultura. 

Por Antonio Vitor.