sábado, 20 de junho de 2015


A AUSÊNCIA DE DEUS E A DESUMANIZAÇÃO 
por Antonio Vitor.

Francis Schaeffer esforçou-se para mostrar que a filosofia moderna foi a principal responsável por afastar Deus do homem, lançando a fé, na melhor das hipóteses, na esfera da experiência irracional, enquanto enjaulava a razão humana no materialismo árido. Por isso, segundo ele, a experiência religiosa do século XX era, em geral, uma experiência de "2 andares". Deus, na melhor das hipóteses, não poderia ser conhecido. Nem poderiam ser conhecidas como verdadeiras quaisquer proposições teológicas. Na pior das hipóteses, Deus não existe e "está morto", como declarou Nietzsche - que não matou Deus pessoalmente; ele já encontrou Deus "morto" para os homens de seu tempo.

Como consequência disso, os homens criaram conceitos equivocados de si mesmos e do mundo. Se não podemos ter certezas dadas pela Revelação Divina, não podemos afirmar que somos Imagem e Semelhança de Deus. Com o Darwinismo, então, fortaleceu-se a visão do homem como um mero animal. Não coincidentemente, Aristóteles, que também desconhecia a Revelação Divina, considerava o homem como um "animal" social. Se não somos a Imagem da divindade, somos animais, encarcerados no mundo natural. Com as teorias behavioristas (também chamadas "comportamentalistas") da psicologia, o homem agora começou a ser visto como uma máquina biológica. Se não existe um Deus pessoal, então não existe pessoalidade dentro do universo. Somos apenas agrupamentos acidentais de átomos em um mundo sem propósito, movidos unicamente por leis naturais frias e sem sentido. Se tudo o que existe é matéria, não existe qualquer dignidade no homem. Em "A Morte da Razão", Schaeffer escreveu:


"(...) o homem, tendo sido criado à Imagem de Deus, foi destinado a usufruir com Ele uma relação pessoal. A relação do homem é ascensional (para cima), não apenas descencional (para baixo). Quando tratamos com pessoas do século XX [e XXI], esta diferença assume crucial importância. O homem moderno visualiza sua relação descencionalmente, em termos do animal e da máquina. A Bíblia rejeita esse conceito da natureza e sentido do homem. Do ponto de vista da personalidade, somos diretamente relacionados a Deus. Não somos infinitos, somos finitos; não obstante, somos apenas pessoas, feitos à Imagem do Deus pessoal que existe." [1] 

Os sintomas disso podem ser vistos em toda a cultura Ocidental. Estreando no Festival de Cannes de 2006, o filme Electroma, de Thomas Bangalter, protagonizado pela dupla de músicos Daft Punk, narrava a história de dois robôs em busca de sua humanidade. Assista a um trecho do filme ao som da música "Humanos apesar de tudo" [trad.: "Human after all"]:





No meio do filme, o roteirista inseriu uma crítica social que é também perfeitamente coerente com os movimentos de contestação presentes na modernidade. Se Deus não existe, e se somos meramente máquinas ou animais, não existem também normas morais objetivas. Se o homem é uma máquina impessoal, também são impessoais as culturas e "tradições", e são igualmente desprovidas de propósito. Aqueles que buscam por sua humanidade, então, desconfiam ou rejeitam as tradições e toda as "formas" de ordem e construção social. Nesse momento do filme, os dois robôs deparam-se com a rejeição da sociedade em suas tentativas de atingir qualquer esboço de "humanidade". Mas as outras pessoas também são robôs. Suas regras são falsas, e por isso não parecem desejáveis quando busca-se um valor na existência. Assista a mais esse trecho, agora ao som da música "Interiormente" [trad.: "Within"]:




"Há tantas coisas que eu não entendo", canta a letra. O Racionalismo moderno terminou em frustração. Seus filhos são o Irracionalismo e o Niilismo. O determinismo inicial perdeu-se diante de uma crise epistemológica. "Como sabemos que sabemos?", eis a questão. No fim, eles terminaram negando qualquer conhecimento.

O humanismo dos nossos tempos substituiu a lei moral pelo emocionalismo; a verdade pela opinião pública; e a justiça pela vontade popular. Vivemos uma era da aparência, da teatralização constitucional e da revolta kitsch, porque não existe essência ou verdade em nada. 

"Não existem verdades", mas também "não existe homem". Jean-Paul Sartre afirmava que o homem é uma vítima de seu desejo de ser um deus quando na verdade é um nada destinado à morte. Albert Camus, muito mais sensível do que Sartre, lutou para salvar o homem sem Deus daquele que, nas suas palavras em "O Mito de Sísifo", é a única questão filosófica séria, i.e., o suicídio. Como viver em um mundo sem Deus e, portanto, sem bem e mal objetivos? Esse dilema, para Camus, coloca o homem em uma posição de revolta constante, que não pode entregar-se por qualquer razão à conclusão fria de que o próprio assassinato é lícito. Camus entende a modernidade como uma revolta metafísica e todos os totalitarismos e revoluções como consequências da "morte de Deus" quando o homem tenta ser consistente com sua descrença em um Absoluto transcendente.


O que resta aos homens então? Uma opção é o hedonismo. O humanista Charles Melman, psicanalista francês considerado por muitos o "herdeiro de Freud na França", afirma que "O progresso inegável é ter aprendido que o céu está vazio, que no Outro não há ninguém e não há nada. Isso é um progresso..." [2]. Ele também explica os efeitos dessa ausência de Deus na cultura:


"(...) a "saúde mental", hoje em dia, não se origina mais numa harmonia com o Ideal, mas com um objeto de satisfação. A tarefa psíquica se vê  enormemente atenuada, e a responsabilidade do sujeito apagada por uma regulação puramente orgânica. (...) O século que se inicia será a suspensão deles [dos limites]: não há mais impossível. (...) Foucault, Althusser, Barthes, Deleuze, ... não proclamam mais o direito à felicidade, mas ao gozo. (...) quando se produz numa sociedade uma tal valorização do gozo, a história mostrou que devemos prever consequências, o retorno das chamas que podem tomar a forma da instauração de um clima e de medidas de natureza autoritária, supostamente respondendo, também aí, a um anseio popular. " [3] 


A busca pela satisfação sem limites é aquilo que Melman chama de "nova economia psíquica" e que está presente nos movimentos humanistas da atualidade. A moral foi abolida e agora os homens vêem-se impulsionados à busca incessante pelo gozo [4]. O prazer sem limites deixa de ser regulado por normas e pela autoridade Divina, e torna-se, antes disso, um direito a ser reconhecido pelas leis. Isso está muito claro na luta do movimento LGBT pelo mundo. A "nova economia psíquica é, portanto, aquela onde a demanda pela necessidade foi substituída pela demanda pelo gozo." Se Deus não existe, a morte não é mais vista à luz do sagrado. O corpo humano não é mais tabu. Isso pode ser visto no fisiculturismo, nas exposições de arte com cadáveres reais (veja o vídeo que segue abaixo, onde a exibição de cadáveres é chamada de "arte"; essa exposição viajou o mundo inteiro e conquistou muita atenção), no exibicionismo midiático, na destruição da figura paterna, no tratamento do Outro como objeto, etc. Melman julga a confusão da contemporaneidade como o "preço a ser pago pelo progresso," e, embora ele reconheça alguns resultados indesejáveis mesmo para os humanistas, ele não abdica de seu ponto de vista e não percebe suas próprias incoerências.




Quando, pois, o homem moderno busca a sua "humanidade", em virtude da falta de base desse conceito em sua cosmovisão, ele inevitavelmente entra em choque com as normas morais e as tradições estabelecidas, e, como vemos na Ideologia de Gênero, ele entra em choque com a própria realidade. Essa seria uma luta sem fim, pois somos seres finitos vivendo em um mundo finito.

Em virtude da constante insatisfação, e da impossibilidade de realizar a infinitude, o homem moderno também tem demonstrado aderir a uma outra opção: o escapismo. R. J. Rushdoony explica que é por essa razão que o budismo tem atraído tantos jovens no Ocidente, pois a salvação budista requer uma anulação da existência, pois ela é sempre sofrimento. Em The Basis of Human Dignity, Schaeffer disse que


"(...) se uma pessoa foi impulsionada pelo acaso impessoal, as coisas que fazem dele uma pessoa – esperança de propósito e significância, amor, noções de moralidade e racionalidade e beleza – são em última análise irrealizáveis e são, portanto, sem sentido. Em tal situação, o homem está acima ou abaixo? A humanidade seria a mais baixa das criaturas na escala, no mínimo, de acordo com o que a realidade é." [5]


O humanista H.J. Blackham expressou isso com uma ilustração dramática:


"Nas suposições humanistas, a vida não leva a lugar algum, e tudo o que não é pretensão, é engano. Se existe uma ponte sobre um desfiladeiro que abrange apenas metade da distância e termina no meio do ar, e se a ponte está lotada de seres humanos num empurra-empurra, um após o outro eles cairão dentro do abismo. A ponte não leva a lugar algum, e aqueles que estão pressionando tentando cruzá-la vão a lugar algum... Não importa aonde eles estão indo, que preparações para a jornada eles fizeram, nem o quanto podem estar apreciando-a. A reclamação verifica apenas, de modo objetivo, que tal situação é um modelo de futilidade." [6]
E o escapismo é a conclusão do filme de Thomas Bangalter. O homem-máquina não tem objetivo ou significado. A ele, só resta o desespero diante do absurdo existencial.



Esse é o resultado do humanismo? Desumanizar o homem? A tentativa de entender o universo sem Deus conduziu à incompreensão. Não é por acaso que os países onde há mais ateus são, segundo as estatísticas, os líderes mundiais no ranking do suicídio no mundo. Desde que o Ocidente começou a abandonar o Cristianismo, especialmente depois da Revolução Cultural, aumentaram os índices de depressão, adultério, divórcio, abandono familiar, etc. Schaeffer acertou ao dizer que


"(...) a atitude de superioridade contra o Cristianismo – como se o Cristianismo tivesse todos os problemas e o humanismo tivesse todas as respostas – é bastante injustificada. Os humanistas do Iluminismo dois séculos atrás pensavam que encontrariam todas as respostas, mas, com o passar do tempo, essa esperança otimista foi provada falsa. São seus próprios descendentes, aqueles que compartilharam sua cosmovisão materialista, que têm dito mais e mais alto com o correr dos anos, que não existem respostas finais."[7]

A atitude essencialmente idólatra do homem para com sua própria Razão é denunciada claramente nas Escrituras. A razão humana não é objeto de culto. Essa idolatria é, na verdade, uma perversão da natureza criada por Deus. Não foram Adão e Eva quem desejaram conhecer o Bem e o Mal sem Deus? Levantando-se contra Deus, os filósofos humanistas deveriam reconhecer toda a sua nudez, toda a sua necessidade e seu estado de perdição.


"Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos." (Romanos 1:22) 


Somos nós, Cristãos, quem temos a obrigação de redimir a cultura Ocidental.

Por Antonio Vitor.
Soli Deo Gloria.

1. Francis Schaeffer, A Morte da Razão, 12.
2. Charles Melman, O Homem Sem Gravidade: Gozar a Qualquer Preço (Rio de Janeiro-RJ: Companhia de Freud, 2008), 36.
3. Ibid., 15, 17, 44.
4. Ver Glossário em ibid., pág. 204. "GOZO: Quando o termo é empregado por analistas, não se deve entendê-lo em sua acepção usual, ainda que nem por isso esteja dissociado dela. (...) Com efeito, o gozo está além do prazer."
5. Francis Schaeffer, The Basis of Human Dignity. Originalmente, trata-se de um documentário, mas esse trecho foi traduzido de uma transcrição do mesmo.
6. Citado por Francis Schaeffer, ibid.
7. Ibid..

quarta-feira, 17 de junho de 2015


A REVOLUÇÃO FRANCESA E A CONTRARREVOLUÇÃO CONSERVADORA AMERICANA
por R. J. Rushdoony.

Há alguns anos, Drucker desafiou como "falaciosa" a crença de que as origens da Revolução Americana deveriam ser encontradas no Iluminismo, e negou também que a Revolução Americana era uma precursora da Francesa. Em vez disso, ele afirmou,


"A Revolução Americana foi baseada em princípios completamente contrários àqueles do Iluminismo e da Revolução Francesa. Em intenção e em efeito, ela foi um bem-sucedido contramovimento contra o despotismo racionalista do Iluminismo que proveu a fundação política da Revolução Francesa. Embora a Revolução Francesa tenha acontecido posteriormente, ela foi politicamente e filosoficamente antecipada pela Revolução Americana. Os conservadores de 1776 lutaram e venceram o espírito da Revolução Francesa de forma que o desenvolvimento Americano realmente representa um estágio mais avançado na história do que o Etats Generaux, o Terror, e Napoleão. Longe de ser uma revolta contra a antiga tirania e contra o feudalismo, a Revolução Americana foi uma revolução conservadora em nome da liberdade contra a nova tirania do racionalismo liberalista do Despotismo Iluminado. 
... A Liberdade do mundo Ocidental durante o século XIX e até os dias de hoje foi baseada sobre ideias, princípios, e instituições da contrarrevolução conservadora Americana de 1776. 

A Revolução Americana trouxe vitória e poder a um grupo que havia sido quase completamente derrotado na Europa e que estava aparentemente em rápida decomposição: os anti-centralistas, os conservadores anti-totalitários com sua hostilidade ao governo absoluto e centralizado e sua desconfiança contra qualquer governante que alegasse perfeição." [1]

O sucesso da Revolução Americana, acrescenta Drucker, derrotou o Iluminismo na Inglaterra e permitiu que o pensamento de Burke ganhasse ascendência lá. [2] A caracterização feita por Ducker da revolta Americana como uma "contrarrevolução conservadora" é talvez a melhor descrição simples da causa. As tentativas de Beard, Jameson, Parrignton, e outros, de ler a índole própria da Revolução Americana não podem sustentar-se. O julgamento brusco de Malin com referência a Parrignton está claramente em ordem:


"O exemplo mais notável dessa combinada degradação da ciência-literatura social da história Americana foi o Main Currents of American Thought de Parrignton. Ele pertence à mesma classe do Mein Kempf de Hitler ao basear a história ao nível da propaganda viciada em prol de um programa social sendo imposto sobre uma nação." [3]

As diferenças entre as duas revoluções eram notadas por muitas outras pessoas além de Burke. Nestas condições, Friedrich Gentz (1764-1832), conselheiro de Metternich e secretário do Congresso de Viena, em 1810, chamou atenção para as quatro diferenças essenciais. Primeiro, a Revolução Americana estava baseada sobre princípios legais e tradições firmemente estabelecidas, enquanto a Revolução Francesa moveu-se por premissas obviamente ilegais e desprovidas de princípios. Segundo, a Revolução Americana era "defensiva", uma batalha dos Americanos para preservar suas liberdades e continuar seu desenvolvimento legítimo, enquanto a Francesa era "do começo ao fim, no sentido mais alto da palavra, uma revolução ofensiva." Terceiro, a Revolução Americana teve um objetivo fixo, definido, limitado, e particularista, enquanto a Francesa não tinha nenhum, mas antes moveu-se em termos de "vontade arbitrária, e de uma anarquia sem limites." Quarto, a Revolução Americana, em decorrência de sua natureza legalizada e limitada, encontrou-se com resistência limitada, enquanto a Francesa poderia apenas "forçar o caminho através de violência e crimes." [4]

O morador da Nova Inglaterra, Thomas Paine (que mudou seu nome para Robert Treat Paine para prevenir confusão com o inglês que escreveu o Rights of Man), em "Adam and Liberty" (1798), escrito quando a guerra com a França parecia iminente, viu a diferença como entre "verme pestilenta da Anarquia" e as "leis" Americanas e sua longa tradição, que ele comparou ao "carvalho imperial; cujas raízes, como nossas liberdades, foram nutridas por eras."


"Enquanto a França banha seus enormes membros reclinada no sangue,  
E ameaça a base da sociedade com ampla dissolução;  
Que paz seja como a pomba, que voltou depois da inundação,  
E encontre uma arca de residência em nossa suave constituição.


Este é o fogo do sílex, cada americano aquece. 
Deixe os vencedores arrogantes de Roma acautelarem-se da colisão,  
Deixe-os trazer todos os vassalos da Europa armados,  
Nós somos um mundo por nós mesmos, e desprezamos uma divisão."

A Revolução Francesa representou o resultado violento de três forças maiores. Primeiro, as ideias do Iluminismo encontraram sua maior expressão e aplicação em uma moda radical e cuidadosa na Revolução Francesa. Ela foi vista como a oportunidade que o homem tinha para reordenar a história e reconstruir os homens nos termos da luz dessa filosofia. Segundo, ela foi o tanto o triunfo quanto a esperança banhada de sangue de várias sociedades iluministas, secretas e subversivas, dedicadas à mesma fé que filósofos Iluministas, mas com estratégias de organização acrescentadas. [6] Terceiro, ela representou a culminação também de uma tradição estatista na França. A legislação social extensiva diante do desemprego, fome, inundação, fogo, epidemias de origem animal, e praga, e também os hospitais estabelecidos, asilos, riqueza familiar, assistência educacional, pensões, e coisas do tipo, caracterizaram a França monárquica. Caridade privada e responsabilidade pessoal foram firmemente substituídas por legislação para bem-estar. A Revolução então apresentou-se como o estado paternalista total, em cumprimento do que a monarquia havia começado.


"Desde os primeiros dias da Revolução, a assistência foi declarada como uma obrigação nacional, um débito que o estado possuía para com seus cidadãos. Em palavras, os Revolucionários provavelmente foram além do Antigo Regime, mas em obras eles meramente seguiram a política que havia sido há muito estabelecida sob o Antigo Regime." [7]

Na Inglaterra, entretanto, aqueles problemas foram firmemente enfrentados nos séculos XVI e XVII com imensos derramamentos de riqueza privada e caridade, de forma que os objetivos educacionais, caridosos e reformadores foram alcançados através da sociedade antes de o ser através de agências estatais. O resultado foi "uma quieta, mas verdadeira revolução." [8] A tradição Americana representa uma continuação da "revolução" Inglesa, e o desenvolvimento extensivo de associações, caridades, fundações, universidades, escolas, e o movimento missionário mundial são aspectos desse progresso. 

As três maiores expressões da filosofia do Iluminismo foram, primeiro, a Revolução Francesa; segundo, Darwin e sua mitologia da evolução; e, terceiro, a Revolução Russa e suas teorias Marxistas. Um número de premissas e pressuposições governa essa fé desenvolvida, e um desentendimento deles é básico para uma compreensão da história contemporânea. 

Primeiro, essa filosofia implica uma rejeição do passado e da história. "A Revolução Francesa, que sentiu a necessidade de um novo Ano Um e de um novo calendário, era uma revolução contra a história." [9] De acordo com essa fé, o tempo de Deus precisa ser suplantado pelo tempo do homem, e o governo total e a lei de Deus, pelo governo total e pela lei do homem. Esta filosofia sustenta que o conceito de mente limpa como um quadro negro é básica para a verdadeira educação, de forma que aquela educação não seria desenvolvimento, mas condicionamento. Esse conceito, aplicado à história, vê a revolução como um quadro negro limpo histórico: o passado é exterminado, no intuito de que a história possa começar fresca. Com a Francesa, um novo calendário marcou uma nova era no tempo. A culminância desse novo tempo, a era revolucionária, será, para o Marxismo e para a Internacional Comunista, o fim da história. Quer seja justificada em nome da Razão (antes de Darwin) ou da ciência (depois de Darwin), a filosofia do Iluminismo é anti-histórica. Burke opôs-se à Revolução Francesa por causa de sua natureza anticristã e anti-histórica, mas apoiou a Revolução Americana porque ela era o verdadeiro cumprimento de um Cristianismo e da história. A concepção de mente como um quadro negro limpo tem raízes antigas, mas ela veio a si no Iluminismo.

Segundo, como um corolário do primeiro, há uma rejeição das instituições e dos costumes herdados do passado que são considerados tanto não racionais quanto não científicos. Como um resultado, há uma hostilidade à religião, ao casamento, e à família em termos de fé, uma hostilidade a tudo, inclusive, exceto o estado. Tudo é então consumido em dois componentes, o homem e o estado, e o homem é a criatura do estado e não há transcendência em relação a ele.

Terceiro, o mal não está na natureza humana, que é tanto boa quanto pelo menos neutra, mas no ambiente. O homem é por isso maleável. O estado, pela reordenação do ambiente, será capaz de criar uma humanidade perfeita. "Pela mudança das instituições humanas, o ser humano em sei mesmo nascerá novamente." [10] A Redenção é, então, ato político, não fé religiosa, e o estatismo é feito necessário para o homem. Horace Mann sustentou que as escolas do estado eliminariam o crime, as favelas, as prisões, e todas as mazelas humanas; socialistas sustentam que as ações do estado alcançariam o mesmo propósito através de legislação político-econômica; os campeões de economia de bem-estar ou intervencionismo acreditam que projetos habitacionais acabarão com as favelas, pobreza e delinquência. Em cada forma dessa fé, o empirismo prevalece: medições externas e impressões governarão a mente e a natureza do homem, que é essencialmente passiva. Mesmo o racionalismo criativo de Kant é empírico nesse ponto: ele ergue-se sobre a prioridade da experiência empírica que conduz então para uma resposta criativa. Contra tudo isso, a Constituição dos Estados Unidos não foi escrita em termos de qualquer fé na bondade essencial do homem, um artigo da nova fé, mas em termos de freios e contrapesos, uma desconfiança no homem.

Quarto, os novos gerentes da sociedade devem ser cientistas, educadores, e políticos, os novos filósofos-reis, homens que agem em termos de ciência e educação "científica", teoria política, e economia. Esses, quer sejam chamados de planejadores, gerentes, servos civis, ou a ditadura do proletariado, são assumidos como habilitados para instituir controle eficaz e alterar a natureza humana através da ação estatal apropriada. Esta elite, agindo em termos de razão e ciência, pode refazer o homem e a sociedade. Ela é vista, não como um poder elitista, mas como objetiva e altruísta, e uma expressão da razão científica.

Quinto, é defendido por esses filósofos que o homem e a sociedade são basicamente seculares, não-teísta ou ateísta, antes de religioso. O Cristianismo, portanto, é algo, no máximo, periférico, antes de ser algo essencial para o homem, sociedade, e governo civil. A sociedade moderna é então não religiosa ou irreligiosa por princípio. 

Sexto, a supremacia da ciência é afirmada. Comte viu três estágios de pensamento; primeiro, o teológico ou fictício; segundo, o metafísico e abstrato; e terceiro, o pensamento científico ou positivo. A formulação de Comte afiou uma fé longamente desenvolvida. Mais importante, Comte, defendendo que o pensamento científico não está preocupado com as causas, ou significado, como meios para os resultados desejados, promoveu com isso o triunfo da metodologia sobre o significado. A partir disso, a metodologia é mais importante do que o conteúdo na educação científica. Há também, desde então, ausência extensiva de conteúdo de cientistas para com o significado de sua atividade; ciência é metodologia. Daí, novamente, o estabelecimento da democracia é visto como a cura de tudo para todas as culturas, desde que a metodologia refará o homem. A democracia é então aplicada aos estados Asiáticos, Africanos e Latino-americanos sem qualquer reserva para com suas condições históricas e culturais, porque é assumido que a forma ou método é criador de objetivos válidos. Este conceito governa as Nações Unidas e o Departamento de Estado dos EUA, bem como as atividades da Internacional Comunista. A metodologia é criadora e tem prioridade. A metodologia então impõe uma concepção radicalmente diferente de vida sobre o homem. A metodologia é tanto funcional como econômica. Ela está preocupada com a diminuição das distâncias entre dois pontos. Ela quer eliminar o que não parece ser essencial de uma perspectiva científica. A família e a propriedade privada são tanto não econômicas quanto não-funcionais neste sentido e precisam ser eliminadas. Bebês de proveta, ou hereditariedade controlada, devem ser então propostos como mais eficientes. Inclusive, tem sido sugerido que homens devem ser inabilitados desde o nascimento, com ataques, pela agência central de controle. Planejamento e controle total são conclusões inescapáveis dessa prioridade de metodologia. Então, também, é simplismo. Bark chamou atenção para uma das falhas centrais de Roma, a confusão entre "simplicidade e força, como se uma não pudesse existir sem a outra" [11] Essa fome romana por simplicidade foi superada no ideal científico de simplicidade em hipótese e método, um axioma religioso em essência. Este triunfo da metodologia foi erosivo para tudo, exceto o o poder do estado científico para controlar, refazer e governar absolutamente os homens.

A supremacia da ciência também significou a reinterpretação da vida em termos de categorias científicas. Isto aparece, como nós vimos, na aplicação do conceito matemático de igualdade aos homens. O termo "igualdade" refere-se a uma abstração, e, mais do que isso, a uma abstração de uma variedade particular, abstração quantitativa. Para aplicar esse termo, como a teoria política científica faz, para a variedade, a concretude e a riqueza da situação humana são ao mesmo tempo fazer uma radical injustiça e introduzir irrealismo e injustiça dentro da ordem política. Pode um homem ser igual a outro homem, a uma mulher, ou uma árvore igual a uma nuvem? A doutrina Bíblica não é igualdade (ou desigualdade), mas vocação, o que pressupõe a necessidade e valor das diferenças. Cada um tem seu lugar necessário e honra e dignidade em termos de vocação e de sua execução disso. A ideia de "uma ciência do homem" pressupõe a validade de abstrações e generalizações em conhecer e descrever o homem. A fé Bíblica define o homem em termos de imagem de Deus. O homem tem sua cabeça federal, seja em Adão ou em Cristo, mas, em qualquer caso, ele tem uma vasta variedade de diferentes e indescritíveis potencialidades de vocação que negam abstração. Há unidade tanto em Adão quanto em Cristo, mas nenhuma possível redução da Adão ou Cristo. A ciência do homem é então metodologia científica. A ideia moderna de democracia é baseada em parte na ciência como abstração ou redução.

Sétimo, devido ao fato dessa filosofia buscar refazer o homem, ela é hostil à ideia de punição. A punição assume duas coisas: primeiro, responsabilidade da parte dos criminosos, e, segundo, a limitação da autoridade do governo civil sobre um homem para um ato de crime específico e evidente e para uma específica, limitada e evidente punição disso. A ideia de crime como uma doença mental nega a limitação e coloca o homem totalmente nas mãos do estado. Como Lewis notou, a punição é


"... sempre finita: você poderia fazer tanto quanto ao criminoso e nada mais. Tratamento medicamentoso, por outro lado, não precisa ter limite fixado; ele poderia seguir até ter efetuado a cura, e aqueles que estavam ministrando isso poderiam decidir quando aquilo seria. E se a cura fosse compassiva e desejável, quanto mais a prevenção? Cedo, alguém que já tivesse caído alguma vez nas mãos da polícia em tudo seria colocada sobre... controle... no fim, todos os cidadãos." [12]

Oitavo, a Revolução Francesa era o começo da democracia em serviço militar, i.e., recrutamento moderno. Tal recrutamento começou como e é cada vez mais uma ferramenta política servindo a duas funções. Primeiro, ela habilita um estado para controlar a população mais efetivamente, bem como para ter uma oportunidade de doutrinação. Segundo, seu propósito é enfraquecer e quebrar tanto quanto possível o poder militar no estado. Em um exército profissional, o relacionamento entre oficiais e homens é próximo, e o oficial tanto conhece suas tropas quanto é hábil para julgar suas mentes, sua moral, e sua potencialidade. Ele está então em uma posição, quando o governo é fraco, de derrubar o governo, porque ele age em termos de uma presunção em seus homens. Um exército recrutado é um exército de estrangeiros, geralmente em vantagem com seus oficiais, incomparável a um exército profissional em força, mas mais seguro para o estado por causa dessas coisas. Recrutamento no estado moderno é então um instrumento pelo qual a liberdade dos cidadãos e dos militares é limitada e enfraquecida como um instrumento de controle.

Nono, nessa filosofia desenvolvida e em desenvolvimento, a política estrangeira predomina sobre a política interna. [13] As esperanças messiânicas da Revolução Francesa imediatamente envolvem-na em uma guerra contínua contra as nações. A Revolução Russa é não menos dedicada a essa fé messiânica, e os Estados Unidos, que em anos recentes sofreu uma segunda revolução, é igualmente seguro desse papel de salvador do mundo. O intervencionismo é tanto político quanto econômico, e intervencionismo econômico em casa anda historicamente de mãos dadas com a intervenção em negócios de poderes estrangeiros. Nada está mais claro, em uma leitura do Antigo Testamento, do que a hostilidade da fé Bíblica a essa prioridade de negócios estrangeiros e seu concomitante, o intervencionismo. A hostilidade de George Washington ao intervencionismo não precisa ser recontada, e a Doutrina Monroe era uma asseveração da imunidade da América contra o intervencionismo.

Décimo, a humanidade é o verdadeiro deus do Iluminismo e do pensamento da Revolução Francesa. Em todas as fés religiosas, um dos requerimentos inevitáveis do pensamento lógico assevera-se a si mesmo em uma demanda pela unidade da cabeça. Por isso, desde que a humanidade é deus, não pode existir divisão nessa cabeça, a humanidade. A raça humana precisa portanto ser forçada à unidade. Desde que a filosofia Iluminista é monística, isso significa uma intolerância das diferenças como essencial. Diferenças nacionais e culturais, em vez de serem dadas por Deus e possuidoras de riqueza e dignidade para serem respeitadas, devem ser obliteradas. O objetivo não é comunhão, mas uniformidade. Novamente, desde que a humanidade é deus, a matança de qualquer homem seja por crimes ou em contextos de guerra é uma ofensa. (A única matança permitida é possivelmente a execução "carinhosa" de George Bernard Shaw contra os inimigos do socialismo.) O pacifismo humanista é o resultado, e um mundo pró-unificação, as Nações Unidas, e a fé da paz-a-qualquer-preço. A cabeça precisa ser unificada. Essa fé encontra expressão na publicação 7277 do Departamento de Estado dos EUA, "Liberdade Contra a Guerra", de setembro de 1961. [14] Esta fé foi expressa no meio da guerra por Churchill e F. D. Roosevelt no Ponto 8 da Carta do Atlântico, e foi atribuído aos seus governos: "Eles acreditam que todas as nações do mundo, por razões tanto espirituais quanto realistas, precisam abandonar o uso da força." Mas a Escritura não considera o uso legítimo de força como um mal, mas antes como uma necessidade e um bem para ser usado para prevenir a ascensão e o triunfo do mal. A fé de Roosevelt requereu uma intervenção messiânica com uso da força ao mesmo tempo em que requereu a condenação de toda força! Por causa dessa coincidência entre pacifismo e intervencionismo messiânico, esta filosofia criou guerra mesmo onde os homens mais falaram sobre paz mundial. A própria ideia de Nações Unidas requer guerra, na medida em que ela insiste em coisas irreconciliáveis e contraditórias. Primeiro, ela insiste em unir o mundo e nivelar as diferenças. Qualquer pessoa com um mínimo senso de integridade precisa inevitavelmente resistir a esse nivelamento. Segundo, ela procurar criar um superestado que precisa coagir cada vez mais todos os estados, governos civis e indivíduos para a linha com seu sonho de poder messiânico. Terceiro, ela procura controlar a história e congelá-la em um molde particular nos termos do pensamento Iluminista. Inevitavelmente, esta fé é anti-Cristã, e um conflito com o Cristianismo é requisito para o seu ser.

Décimo primeiro, o Iluminismo, a Revolução Francesa, e os proponentes da ciência moderna vêem a natureza como eterna, infinita e abundante. Desde então, nesta tradição, como exemplificado hoje no Marxismo e nos estados de bem-estar social, o problema econômico é primeiramente e essencialmente de distribuição, não de produção. Acreditar em uma natureza criada é firmar-se em uma economia de escassez, a uma consciência das limitações da natureza e da necessidade de trabalho cuidadoso, i.e., produção, para desenvolver os meios limitados da natureza. A imensidão intocada não é, então, a terra da abundância, mas antes o reino da abundância é a civilização livre e desenvolvida, onde o trabalho e o capital do homem conduziram à produtividade e à medida de abundância cultivada.

Décimo segundo, como nós vimos, a Revolução Francesa destruiu as reminiscências de feudalismo e federalismo na França e reduziu todo o governo civil nas mãos do poder central e seus departamentos, enquanto a Revolução Americana foi um triunfo do localismo contra o centralismo, e da lei sobre a maioria.

Décimo terceiro, esta filosofia, por sua negação do Cristianismo, agiu rapidamente para a conclusão de que a realidade é basicamente impessoal. Daí, o conhecimento precisa ser abstrato e impessoal para ser verdadeiro, e a sociedade e o homem precisam ser similarmente impessoais. O ódio de Dewey contra a pessoalidade pressupõe sua visão da realidade. [15]

Décimo quarto, a escola do estado é a "igreja" estabelecida e mediadora da salvação para o homem, e crianças devem ser nutridas primeiramente para e pelo estado. [16]

Décimo quinto, como foi indicado, esta filosofia é hostil à posse da propriedade privada. Tal propriedade como permitida para a posse privada está sob o consentimento do estado e dos planejadores estatais. Não está implícito aqui apenas a prioridade do estado aos cidadãos, mas também o ódio contra a pessoalidade em termos de uma concepção impessoal da realidade última. Mais do que isso, o controle social do homem, engenharia humana, cria guaridas de imunidade para controlar os ofensivos. Jeremy Behtham, um inglês liberal e totalitário, queria um modelo de prisão em que "um homem seria capaz de ver os menores movimentos de mil prisioneiros o tempo inteiro, e de controlar suas ações a cada minuto." [17] Este é cada vez mais o sonho da razão para todos os homens.

Estas questões foram apontadas muito cedo por Burke em seu Thoughts on French Affairs, de dezembro de 1791. De acordo com Burke, a Reforma efetuou uma revolução na Europa através da introdução de questões supra-nacionais e transcendentais em cada localidade, e com isso a Europa tornou-se um sistema de ordens civis cristãs. a Revolução Francesa introduziu o majoritarismo e a soberania total. Entre esta Revolução e a Europa Cristã, nenhuma paz é possível. Em suas quatro "Cartas sobre uma Paz Regicida" alguns poucos anos depois, ele declarou que, o que quer que a paz estratégica possa ser em qualquer tempo, o Jacobinismo era uma guerra civil contra a Europa e contra a comunidade Cristã, e estava determinada a uma incessante guerra contra o Cristianismo, e sua "total extirpação." Tanto a Revolução Francesa quanto sua filosofia precisam ser destruídos, ou o Cristianismo na Europa deixará de existir, porque, "em um mundo, com uma república nada independente pode coexistir." [18]

O tempo não fez aquele conflito mais reconciliável. Ele tem, contudo, visto o enfraquecimento da Revolução Americana, que Burke viu como tão importante para a causa da liberdade. Historiadores estão inclinados a ver a Revolução Americana em termos de Iluminismo, e a ação política hoje está extensivamente influenciada pelos pressupostos dos conceitos revolucionários Franceses. Mas, desde o Manifesto Comunista, o Marxismo e a Internacional Comunista expressam melhor o Iluminismo e a Revolução Francesa do que os Estados Unidos, e a competição entre os dois trabalhará para a vantagem do sistema mais consistente.

A situação confusa, com seus conflitos pressuposicionais, dificilmente chegou ao seu ápice. Inclusive, existem aqueles que falaram da Revolução Francesa como Cristã ou Puritana por natureza! Então, Brinton vê os valores da Revolução Francesa como "majoritariamente do Cristianismo tradicional, e especialmente do Cristianismo Protestante, virtudes," e, mais especificamente, como "Puritana." [19] Mas sua definição de Puritanismo é precisamente o moralismo contra o qual a Reforma e o Puritanismo travaram guerra, e que John Cotton, em Apocalipse 13, viu como a marca da besta. Falhar em entender o que o Cristianismo é conduzirá logicamente à falha no entendimento dessa antítese.

(Artigo extraído de "This Independent Republic", de Rushdoony. Págs. 123-133)

1. Peter F. Drucker, The Future od Industrial Man (New York: John Day, 1942), 219, 222f. Marxistas também com uma ênfase diferente, visam o aspecto contra-revolucionário, mas viram-no como uma conspiração de alguns homens contra a Revolução Americana e seus soldados. De acordo com um Americano, "Que a Constituição e o Governo dos Estados Unidos foram estabelecidos não através de Revolução, mas através de Contra-Revolução, poderia ser visto pelo tipo de governo que foi estabelecido sob Washignton e Adams," Albert Weisbord, The Conquest of Power, Liberalism Anarchism, Syndicalism, Socialism, Fascism and Communism, vol. 1 (New York: Covici Friede, 1937), 75. Contra isso, o todo da hsitória colonial Americana, culminando na rebelião e os Estados Unidos, é claramente uma contra-revolução conservadora contra a direção da história Inglesa e Europeia. E, como Clinton Rossiter observou, "A Constituição foi o triunfo do Conservadorismo, mas não por reação," Conservatism in America, The Thankless Persuasion, second edition revised (New York: Vintage, 1962), 104.
2. Ibid., 224. Carl Bridenbaugh, em contraste, tenta ver a Revolução como um produto do Iluminismo em Cities in Revolt, Urban Life in America, 1773-1776 (New York: Alfred A. Knopf, 1955), 425.
3. James C. Marlin, On The Nature of History, Essays about Historu and Dissidence (Ann Arbor, Mich.: J.W. Edwards, 1954), 30f.
4. Friedrich Gentz, translated by John Quincy Adams, "The French and American Revolutions Compared," in S. T. Possony, Three Revolutions (Chicago: Regnery, 1959).
5. Albert Bushnell Hart, American History Told by Contemporaris, vol. III (New YorkL Macmillan, 1897), 319-321. Contra isso, um dos mais conservadores da colônica da Nova Inglaterra era, curiosamente, favorável à visão da Revolução Francesa como uma explosão para o despotismo; veja Edmund S. Morgan, The Gentle Puritan, A Life of Ezra Stiles, 1727-1795 (New Haven, Ct.: Yale University Press, 1962), 455-461. Em 4 de setembro de 1823, Jefferson escreveu para Adams em favor da revolução mundial, vendo seus resultados como "dignos rios de sangue e anos de desolação," The Adams-Jefferson Letters, The Complete Correspondence Between Thomas Jefferson and Abigail and John Adams, vol. II, (Chapel Hill: University of North Carolina Press, 1959), 596.
6. See Una Birch, Secret Societies and the French Revolution (London: John Lane, 1911), 3-63; and Nesta H. Webster, The French Revolucion, A Study in Democracy (London: Constable, 1921).
7. Shelby T. MacCloy, Government Assistance in Eighteenth-Century France (Durham, N.C.: Duke University Press, 1946), 276.
8. W. K. Jordan, Philantropy in England, 1480-1660, A Study of the Changing Pattern of English Social Aspirations (London: George, Allen and Unwin, 1959), 240.
9. Pieter Geyl, Use and Abuse of History (New Haven, Ct.: Yale University, Press, 1955), 22. A consequência é uma estudada ausência de raízes fomentada pela educação. Por causa dessa ausência de raízes, "Os estratos educados da sociedade sào mais ingênuos do que os menos educados. Os mais entusiasmados defensores do Marxismo, Nazismo, e Fascismo eram intelectuais, não os pobres," Ludwig von Mises, Bureaucracy (New Haven, Ct.: Yale University Press, 1946), 108.
10. Louis I. Bredvold, The Brave New World of the Enlightenment (Ann Arbor, Mich.: The University of Michigan Press, 1961), 112. Para uma perspectiva tcheca sobre essa expectativa, veja Jan Michalko em "The Church in a Socialist Society," Dialogue 2, no. 3 (Summer 1963), 224-231. Michalko acredita que a igreja deve não apenas coexistir mas também cooperar com o socialismo enquanto manté um "diálogo."
11. William Carroll Bark, Origins of the Medieval World (Garden City, N.Y.: Doubleday Anchor Books, 1960), 144.
12. C. S. Lewis, The Hideous Strength, A Modern Fairy-Tale for Grown-Ups (New York: Collier Books, 1962), 69.
13. See James W. Wiggins and Helmut Schoeck, eds., Foreign Aid Reexamined (Washignton D.C.: Public Affairs Press, 1958); J. Fred Rippy, Globe and Hemisphere (Chicago: Regnery, 1958).
14. Reprinted, with introductory comments by Dr. Robert Morris, in No Army, No Navy, No Air Force (New York: Bookmailer, 1962). Um ponto de vista com alguma similaridade é defendido em The Liberal Papers, James Roosevelt, editor (Garden City, N.Y.: Doubleday, 1962). Nesses papeis, o armamento é visto como o grande problema e a paz como o objetivo, uma paz que é apenas a abolição da guerra, não uma ordem justa com uma paz Divina. Além disso, desprovidos de absolutos, os autores falham em ver diferenças irreconciliáveis entre homens e nações, mas apenas relativos que podem ser levados como ajuda ao inimigo. See M. Stanton Evans, with Allan H. Ryskind and William Schulz, The Fringe on Top (New York: American Features, 1962), 204-207.
15. See Rushdoony, The Messianic Character of American Education (Nutley, N.J.: The Craig Press, 1963).
16. Ibid.; see also Rushdoony, Intellectual Schizophrenia: Culture, Crisis, and Education (Phillipsburg, N.J.: Presbyterian and Reformed, 1961).
17. Drucker, 230.
18. Ross J. S. Hoffman and Paul Levack, eds., Burke's Politics, Selected Writtings and Speeches of Edmund Burke, on Reform Revolution, and War (New York: Alfred A. Knopf, 1949), 473.
19. Clarence Crane Brinton, The Jacobins, An Essay on the New History (New York: Russel and Russel, 1961), 175. 180.

Rev. R. J. Rushdoony (1916-2001) foi o fundador do Chalcedon e um teólogo influente, especialista na relação entre Igreja e Estado, e autor de numerosos trabalhos relacionados à aplicação da Lei Bíblica na sociedade.

Tradução por Antonio Vitor.

Essa tradução foi autorizada por Mark Rushdoony, filho de Rousas John Rushdoony.

Soli Deo Gloria.

domingo, 14 de junho de 2015


A REVOLUÇÃO CIVIL - PARTE 7
por J. R. Rushdoony.

A Revolução Civil não foi apenas um resultado de vários movimentos dentro da esfera política, mas também do declínio da teoria Bíblica dentro da igreja. A heresia de Pelágio na igreja primitiva retornou repetidamente para clamar por controle sobre a igreja. O Dictionary de Webster (1909, segunda edição) definiu o Pelagianismo nos seguintes termos:


"(1) Não existe tal coisa como pecado original; consequentemente, (2) não há regeneração batismal, nem condenação para crianças não batizadas, nem mancha hereditária do pecado de Adão. (3) O homem tem perfeita liberdade de vontade e não tem nenhuma necessidade absoluta da Graça de Deus para torná-lo justo. (4) O homem, embora auxiliado de várias maneiras pela graça divina, é virtualmente o autor de sua própria salvação."

Algumas igrejas Reformadas limitariam-se ao número 2, para "nem mancha hereditária do pecado de Adão" porque eles rejeitam a regeneração batismal e, em outras instâncias, rebatem a reprovação de crianças não batizadas pela ênfase no pacto familiar acima do rito pactual do batismo como um fato importante.

Em qualquer caso, o Pelagianismo enfatiza a vontade livre e os poderes independentes do homem com referência a Deus. Ao "libertar" o homem da predestinação de Deus, eles libertam também o estado, em tudo aquilo do mundo é dada uma jurisdição independente. Isso significa também "libertar" o homem da lei de Deus, porque a vontade livre do homem, desprovida de qualquer mancha hereditária, dá ao homem um lei natural e uma divindade natural.

A lei natural no pensamento greco-romano é identificado com o estado e com a razão. Na era medieval, Gratian identificou a lei natural com a Lei e com os Evangelhos. [1] Na era moderna, a lei natural substituiu a Lei de Deus e tem sido vista como uma lei inerente à natureza. Ao mesmo tempo, a lei natural advoga ter cumprido a doutrina do universo caído. Norman L. Geisler cita Romanos 1:19-20 para afirmar que todos os homens têm a revelação geral de Deus, que é verdadeiramente suficiente, mas ele não cita a afirmação qualitativa de Romanos 1:18, de que todo homem "detém (ou suprime, rejeita) a verdade em injustiça." Sua resposta para o tipo de leis que um governo civil deveria ter é a de que elas não devem ser nem cristãs, nem humanistas: "Antes, elas deveriam simplesmente ser leis justas. Leis não deveriam ser nem Cristãs nem anti-Cristãs; elas deveriam ser simplesmente retas." [2]

"Leis retas"? E qual é o critério de retidão? Cada religião, incluindo o Humanismo, tem sua própria doutrina de justiça e retidão. Seriam as "leis retas" as leis naturais? Mas a ideia de lei natural, em suas formas Cristã e Iluminista, é essencialmente um produto da Cristandade.

Mas isso não é tudo. Geisler escreve "leis retas." Ele está dizendo que a lei de Deus como colocada na Escritura não é reta? Ele está insinuando que quando Deus deu sua revelação geral, como descrita em Romanos 1:18ff, Ele deu uma lei que difere de Sua lei escritural? A lei "Não Roubarás," ou "Não cometerás adultério" (Ex 20:15,14), são válidas apenas para judeus e cristãos e para ninguém mais? Se Deus é o Criador de todos os homens, como Sua Lei pode não ser reta para qualquer pessoa? Quando o salmista declara "Se a tua lei não fora toda a minha recreação, há muito que pereceria na minha aflição." (Sl 119:92), Geisler diz que ela "é um legalismo temeroso." [3]

Geisler acredita que existe um tipo de lei "reta" e natural em algum lugar da natureza no qual todos os homens podem concordar. Será que o assassino, o adúltero, o ladrão ou o mentiroso concordariam conosco em qualquer lei? Não são eles, como muitos outros, homens sem lei, transgressores, e pecadores? Qualquer lei que todos os homens concordarão é "reta", ou qualquer lei que Cristãos, Mulçumanos, Budistas, Humanistas, e outros religiosos concordarão, não serão lei de forma alguma; elas terão tantas qualificações que seu significado será esquecido.

Mas o Pelagianismo afirma a habilidade do homem para raciocinar sem dificuldade, para agir livremente sem a deformação da Queda, e para legislar retamente sem o único verdadeiro Legislador, Deus todo-poderoso.

Onde quer que o homem atribua a si mesmo qualquer esfera independente à parte do Deus Triúno e independente de Sua Lei, ele abre a porta para todo o mal, e para a arrogância. Nós não podemos viver fora de Deus por um momento, nem podemos jamais encontrar uma esfera ou um segundo de vida onde a Lei de Deus não nos governe.

A arrogância do paganismo não era sua negação da ideia de Deus, mas a rejeição de Deus como soberano absoluto do homem e como legislador. Isso foi apenas algumas poucas gerações antes da Conquista dos Normandos de 1066 que "o moribundo Earl Seward pediu por seu escudo e por seu machado por medo de encontrar o Deus desarmado, 'como uma vaca.'" [4]

O mundo de O Príncipe de Maquiavel é um onde o Cristianismo não tinha nenhum poder para determinar eventos; a fé era incompleta e seu impacto social era fraco. "Retidão" não substituiu a Lei de Deus, mas a busca por poder o fez. O poder sendo o objetivo, o governante deve aprender a cometer atrocidades para manter e aumentar poder. [5] Mais ainda, "é necessário para o príncipe, que deseja preservar-se a si mesmo, aprender a não ser bom, e a usar este conhecimento e a não usá-lo, de acordo com a necessidade do caso." [6] Maquiavel deu instruções de como enganar os homens, destruir a fé com eles, e assim por diante.

As leis de estadismo de Maquiavel governam a nossa era, e toda era que abandona a Palavra-Lei de Deus. As ideias de "retidão" de Maquiavel são claras; quaisquer meios usados para conquistar e manter o poder são retos. 

Nós encaramos um fato curioso. Homens fora da igreja podem discutir o crescimendo do fato da secularização, e o desenvolvimento do monopólio secular do estado, [7] mas homens da igreja agem como se seu carrasco viesse com um buquê de flores. Eles estão prontos para pensar mal apenas de seus companheiros Cristãos!

Nós precisamos lembrarmo-nos a nós mesmos de novo e de novo das palavras de O. Halecki, em The Limits and Divisions of European History (1950): "A tentativa de criar uma cultura que seria Europeia sem ser Cristã... está agora reconhecida como a principal causa da presente crise na civilização Europeia." [8] Aqueles homens da igreja em grande número são uma parte da revolução, essa des-Cristianização do Ocidente, é um fato tanto incrível quanto feio. 

(Artigo extraído de "Sovereignty", de Rushdoony. Págs. 293-296)

1. Gratian's Decretum (c. 1148), in Ewart Lewis, Medieval Political Ideas, vol. 1 (New York, NY: Cooper Square Publishers, 1974), 32.
2. Norman L. Geisler, "Should We Legislate Morality?" Fundamental Journal (July-August 1988): 64.
3. Ibid., 17.
4. Richard Hall, "The Vikings Town-Dwellers," History Today 36 (November 1986): 37.
5. Niccolo Machiavelli, The Prince, in Machiavelli, The Prince and the Discourses, (New York, NY: Modern Library, 1940), chap. 8, 35.
6. Ibid. chap. 15, 56.
7. David Martin, A General Theory of Secularization (New York, NY: Harper & Row, 1978).
8. Halecki, 51, cited in David C. Douglas, The Norman Fate, 1100-1154 (Berkeley, CA: University Press, 1976), 8.

Rev. R. J. Rushdoony (1916-2001) foi o fundador do Chalcedon e um teólogo influente, especialista na relação entre Igreja e Estado, e autor de numerosos trabalhos relacionados à aplicação da Lei Bíblica na sociedade.

Tradução por Antonio Vitor.

Essa tradução foi autorizada por Mark Rushdoony, filho de Rousas John Rushdoony.

Soli Deo Gloria.

domingo, 7 de junho de 2015


A REVOLUÇÃO CIVIL - PARTE 6
por R. J. Rushdoony.

Voltaire foi divulgado como um grande cético e como uma grande inteligência; está evidente que ele era cínico a respeito do Cristianismo e da igreja, ainda que ele tenha recebido apenas o bem dos jesuítas que educaram-no. [1] Ele considerou o canibalismo mais racional do que o Cristianismo [2] De fato, quase tudo o que era "natural", para Voltaire, era mais racional do que uma religião que pôs uma ordem natural como prioridade em relação à natural, e Deus como Senhor sobre tudo. O estatismo era então uma ordem lógica para Voltaire; para ele, Luís XIV fazia mais sentido do que Jesus Cristo. 

Voltaire era um escritor fácil e superficial, mas ele produziu um grande impacto em seu tempo e em muitas mentes desde então. A razão é religiosa. Alexander Murray escreveu sobre as "imagens quebradas" (termo de T.S. Eliot) que marcam nosso tempo: 


"A sociedade Cristã medieval... é nossa ancestral. Ela nos legou muitas imagens, quebradas e não quebradas. E entre as quebradas está a visão de natureza que admite - intercalada com aquelas leis naturais que nós vemos dias após dia trazer nossos aviões a jato seguramente em suas faixas de radar - a manifestação direta e a intervenção do Deus de Jacó." [3]


Exatamente. O governo de Deus não é mais visto como um fato muito presente. Os homens não encontram mais forças na providência inescapável de Deus. Um resultado disso é a covardia. Se os homens não tem temor de Deus, eles terão medo dos homens. Em Junho e Julho de 1988, Ford e Andrea Schwartz de San Jose, California, pertencentes a uma igreja Cristã, circularam uma petição que pedia um para um hospital religioso, pertencente à igreja Cristã, que parasse de praticar aborto ou que abdicasse de seu nome Cristão. Algumas pessoas tiveram medo de assinar. Então, um treinador de atletismo, ostensivamente Cristão, sentiu que não seria "sábio" para ele assinar e exigiu o mesmo de sua esposa, que tremeu e recusou.

Davi diz a respeito do fraco, "Não há temor de Deus diante de seus olhos" (Salmos 36:1), e Paulo cita isso como a descrição de um ímpio (Rm 3:18).

Um segundo resultado é o estatismo. Quando os homens não têm temor a Deus, eles temem o estado, porque é o poder em que eles acreditam e que conhecem. Suas esperanças estão no estado. Bussel observou, em 1896,


"Nós estamos passando por um período de transição (a desculpa usual!), e, talvez, não tenha descartado nem um pouco as antigas crenças do Iluminismo, de que a felicidade pode ser assegurada por um ato do Parlamento, e que o maior exercício da Razão humana está tanto na eleição anual de oficiais, ou na descoberta de alguma conveniência carnal." [4]


O homem e o estado eram as realidades básicas, por trás das quais a fé era a crença minguante no Deus da Escritura. Para Ralph Waldo Emerson, que influenciou Friedrich Nietzsche, o estado como a realidade presente deveria educar os "homens sábios." Em seu "Essays on Politics", Emerson viu o futuro em termos do "homem sábio" (singular), quem Nietzsche chamou de Super-homem. Emerson disse, "com a aparência do homem sábio, o estado expira... O homem sábio é o estado... ele é valor... Sua relação com o homem é angelical..."[5] Em tal visão de mundo, o Summum Bonum, o bem maior, é tanto o homem quanto o estado. Estas são as duas "realidades", porque a Deus foi negado o status de "realidade."

Não há então a escadaria de Jacó, não há governo e comunhão entre o céu e a terra. Para a Revolução Civil, não existe lei além do estado. Se os valores vêm tanto do homem quanto do estado, então no nível do fator de governo é, "minha vontade seja feita." Tanto o indivíduo quanto o estado demandam o reconhecimento de seus direitos soberanos. Cada classe no estado procura seus "direitos soberanos" a custo de todos as outras.

Sem a lei de Deus, a vontade do eu torna-se a premissa que regula cada esfera da vida. A sociedade muda sua ênfase de deveres morais para "direitos" civis. Todas as classes procuram por vantagens, não justiça, embora suas vantagens sejam promovidas ao satus de justiça.

Cada vida do homem, e cada sociedade, tem o centro de gravidade que é a base da força de todo o seu ser. Este centro de gravidade pode ser vantagem econômica, prazer, preocupações raciais, e uma variedade de outros motivos. Pode ser também o Deus Triúno. Desde o Iluminismo em particular, o centro de gravidade do mundo Ocidental, e agora do mundo todo, mudou de Deus para o homem, e da igreja para o estado. O mundo tornou-se menor, para muitos homens, não há céu e não há inferno. Porque para eles não há Deus, cuja justiça e lei governam absolutamente todas as coisas, não há apelo contra o homem e contra o estado. O filósofo estatista diz aos homens, na medida em que ele presenteia-os com seu mundo humanista, "Isto é tudo que vocês conseguirão!" Não há justiça além do homem e do estado, e geralmente muito pouco no homem e no estado.

Esta busca por vantagem torna-se uma negação da justiça, porque a justiça nega todos os privilégios em favor da Lei de Deus. Porque toda a justiça vem do Deus Triúno e está colocada publicamente na Palavra-Lei, não pode haver monopólio na justiça por qualquer agência humana, porque o homem não é a fonte da justiça. Para os homens, arrogar a execução da justiça para si mesmos é assumir que eles sozinhos são os instrumentos da justiça. Em eras anteriores, uma variedade de tribunais, civis, eclesiásticos, comerciais, e assim por diante, eram todos tratados com justiça em seu reino sob Deus. O estado está em processo de exigir para si o monopólio do direot de dispensar a justiça.

Ainda há, contudo, algun tribunais de lei mantidos pelos Cristãos mais ortodoxos e pelos tribunais judaicos para administrar a justiça para todos os que vierem. Observou-se nos tribunais judaicos que sua premissa básica é esta: "O conceito por trás dela é que não pode haver justiça sem Divindade."[6] Isto é, é claro, a premissa da Lei Bíblica, de Moisés, de Jesus Cristo, e Paulo.

Mas esta é precisamente a premissa colocada de lado pela Revolução Civil. Divindade não é um requerimento para juízes e júris, e nem é mais uma qualificação de testemunhas. Assume-se que a chave de requerimento para a administração da justiça não é a divindade, mas a educação e a razão. Educação significando essencialmente educação humanista.

Isto leva a um fato irônico. Todas as leis são simplesmente moralidade promulgada; elas são as ideias de certo e errado defendidas pelos legisladores. Ao mesmo tempo, a moralidade não é mais uma qualificação para o ofício! Apenas em esferas muito limitadas a moralidade é aplicada: o oficial público deve estar dentro do imperativo de igualdade entre os sexos e em questões raciais!

O resultado é injustiça, num mundo maquiavélico. As cidades-estado dos dias de Maquiavel eram tanto sem legitimidade quanto sem justiça. Como um resultado, os legisladores governam pela força bruta e sem justiça. Força e fraude marcaram suas organizações civis. Parkes corretamente notou,


"Desde que Maquiavel tentou encontrar remédios para uma desintegração que felizmente foi uma ocorrência rara na história Ocidental, e desde que os termos em que ele tratou o problema fizeram qualquer solução impossível, seu trabalho é muito menos importante do que comumente se supõe." [7]


Desde que Parkes escreveu, nós nos movemos para uma era maquiavélica, mas Parkes estava certo: os termos em que Maquiavel tratou o problema fizeram uma solução impossível. A Espanha precisou impôr uma "resposta" à Itália. Nós estamos em uma situação como essa hoje. A Revolução Civil vai de uma crise para outra, e a deterioração da cultura e da sociedade desde a Segunda Guerra Mundial é dramática. Todas as respostas propostas por nossos estatistas humanistas apenas agravaram o problema. A Revolução Civil não tem resposta porque é basicamente parte do problema.

(Artigo extraído de "Sovereignty", de Rushdoony. Págs. 289-292)

1. Voltaire, Philosophical Dictionary, A-I (New York, NY: Basic Books, 1962), 170-98.
2. Ibid., 365ff.
3. Alexander Murray, Reason and Society in the Middle Ages (Oxford University: Clarendon Press, [1978] 1986), 404.
4. F.W. Bussel, The School of Plato (London, England: Muthuen, 1896), 22.
5. Ralph Waldo Emerson, Essays and Journal (Garden City, NY: International Collectors Library, 1968), 348ff.
6. Jerold S. Auerbach, Justice Without Law? (Oxford, England: Oxford University Press, 1983), 93.
7. Henry Bamford Parkes, The Divine Order (New York, NY: Alfred A. Knopf, 1969), 10n.

Rev. R. J. Rushdoony (1916-2001) foi o fundador do Chalcedon e um teólogo influente, especialista na relação entre Igreja e Estado, e autor de numerosos trabalhos relacionados à aplicação da Lei Bíblica na sociedade.

Tradução por Antonio Vitor.

Essa tradução foi autorizada por Mark Rushdoony, filho de Rousas John Rushdoony.

Soli Deo Gloria.

terça-feira, 2 de junho de 2015


A REVOLUÇÃO CIVIL - PARTE 5
por R. J. Rushdoony.

Em seus estudos de Política, Aristóteles levanta a questão, "O que é o estado?" Seu meandro de resposta preferencial começa com o comentário de que "o estado é composto." Isso leva à questão, "O que é o cidadão?", que Aristóteles não responde claramente. Ele continua dizendo que que o estado é "composto de diferentes", i.e., seus cidadãos, e portanto ele deve ser uma variedade de pessoas tanto boas quanto más; como o corpo humano, ele tem diversos elementos. [1] Aristóteles então segue para a forma de governo, como pensou a questão, "O que é o estado?", foi respondida. Ele começou seus estudos então definindo o estado:


"Todo estado é uma comunidade de algum tipo, e cada comunidade é estabelecida visando algum bem; porque a humanidade sempre age em ordem de obter aquilo que eles pensam ser bom. Mas, se todas as comunidades objetivam a algum bem, o estado ou a comunidade política, que é a maior de todas, e que abrange todo o resto, objetiva ao bem em um grau maior do que qualquer outro, e ao bem maior." [2]

Para a Escritura, Deus é o bem maior; para Aristóteles, o estado é seu deus, o bem maior. O homem pra ele é mais um animal político do que qualquer outra criatura porque o homem tem discurso, e o senso de bem e mal. Por causa desses fatores, o homem "faz uma família e um estado." Somente "um deus ou uma fera" não precisam de um estado e é "insuficiente pra si mesmo". Nesses termos, Aristóteles diz:


"Mais do que isso, o estado é por natureza claramente prioritário em relação à família e ao indivíduo, desde que o conjunto é por necessidade prioritário em relação à parte; por exemplo, se o corpo todo for destruído, não haverá pé ou mão, exceto em um sentido equivocado... o estado é a criatura de natureza e prioridade em relação ao indivíduo..." [3]

O estado é para Aristóteles a ordem natural e, consequentemente, o ordem racional. Portanto, "o fim do estado é a boa vida." [4]

A influência de Aristóteles na vida medieval e nas eras modernas é bem conhecido. Por trás dos verdadeiros escritos de Aristóteles, outro trabalho, atribuído a Aristóteles, Secretum Secretorum, o suposto conselho de Aristóteles a seu pupilo, Alexandre o Grande, era muito popular na era medieval. Neste trabalho, Aristóteles supostamente disse a Alexandre,


"Ó, Alexandre, a cabeça da política e do julgamento é a Razão. Ela é a saúde da alma e o espelho dos erros... Ela é o chefe de todas as coisas adoráveis, e a fonte principal de todas as glórias." [5]

Dadas as premissas de Aristóteles e do Pseudo-Aristóteles, não é surpresa que Tomás de Aquino tenha definido o estado como "uma comunidade perfeita", i.e., não no sentido moral, mas natural. [6]

O pensamento de Platão também deu sua contribuição. Nas palavras de Catlin, para Platão, "contra a Razão, não há direitos naturais." [7] Se o estado é a ordem natural do homem, e, estando nas mãos dos filósofos-reis é também estar na Razão, como pode um homem ter direitos contra a Razão? Por isso, a República de Platão é necessariamente um estado totalitário.

Com o Iluminismo, e então mais tarde com Hegel, a equivalência do estado com a Razão e com a verdadeira ordem natural do homem tornou-se mais consistente. As teorias de lei natural ascenderam em parte para providenciar uma base não-teológica das leis para o estado. Porque Cristo estabeleceu a igreja, argumentava-se, a Bíblia poderia prover seu decreto de lei supernaturalmente para uma ordem institucional supernatural. O estado, sendo fundado na Natureza, precisava ter uma base natural para suas leis, consequentemente, a lei natural. Em tempo, o estado cessou de olhar pra fora de si mesmo para a lei natural; como na essência da ordem natural, o estado tornou-se sua própria fonte de lei, a lei positiva. Mais recentemente, a meditação transcedental, a nova era do pensamento, a educação sexual, e os cursos de clarificação de valores nas escolas são expressões da nova lei natural.

O desenvolvimento filosófico dos Gregos, Romanos, Escolásticos, e da filosofia moderna para o estado moderno significou a união entre a Razão e o Poder na nova política civil. Há agora, ostensivamente, a feliz união de Razão e Poder. O controle do Cristianismo, visto como irracional, no poder, foi quebrado, e então a Grande Comunidade agora pode emergir. O fato horrível em tudo isso é que o poder do estado é coerção, sempre coerção. Igualar o estado, ou igualar o estado do socialismo científico, é igualar Razão com coerção. A Razão requer coerção porque ela é Razão, e opor-se a essa coerção é irracional. Este é o pensamento de tais estados como a União Soviética, explicitamente, mas essa também é a teoria implícita das democracias. É requerido pelo pensamento de Rousseau e outros na vontade geral.

Nós podemos argumentar justificadamente em bases Bíblicas que a igreja não deveria negar qualquer tipo de coerção física; a atitude dos humanistas é aquela onde a igreja não deve coagir porque ela não é a Razão nem é sua fé racionalizável. Esse requerimento não-coercitivo cada vez mais imposto à igreja pela Revolução Civil estendeu-se a coisas tais como a educação Cristã; as escolas Cristãs e o homeschooling são vistas como coercitivas para a mente das crianças. Os pais também são vistos como coercivos se eles impõem um treinamento e disciplina cristãs para suas crianças. Apenas a coerção estatal é racional; todas as formas cristãs são irracionais e até mesmo más.

Visto dessa forma, a coerção estatista torna-se a ordem racional necessária. Como Otto Scott notou, o slogan revolucionário completo na Revolução Francesa era "Liberdade, Igualdade, Fraternidade - ou Morte." [8] Então alguns jacobinos também defenderam, "Tudo é permitido àqueles que agem na direção Revolucionária." [9] Tanto a Revolução Francesa quanto a Revolução Russa, o Terror era igualado à Razão; Lenin estava muito consciente disso.

É claro, tais homens defenderam e defendem que a coerção é má se não é ligada com a Razão científica. Tal coerção má inclui aquela dos pais, da igreja, dos fascistas, dos reacionários, dos contrarrevolucionários, e todos aqueles que discordam da Revolução Civil, que é a epítome da Razão e a voz desta.

Bussel observou,


"A ruptura tomou lugar com autoridade, nos Humanistas, com seus ideais neo-pagãos e helenísticos; no Luteranismo Copernicano ('casa homem como o centro de cada planeta'); nas teorias de sistemas políticos independentes, como Maquiavel e Bodin; ou de diferentes sistemas éticos. O período inteiro desde a metade do século XVI à Revolução Francesa é dominado pela 'Lei da Natureza'. Até em Tomás havia uma crença sutil de que a graça de Deus era indispensável apenas para as virtudes teológicas." [10]

Agora o estado é em si mesmo tanto natureza quanto lei.

O impacto dessa Revolução Civil tem sido de longuíssimo alcance, e suas raízes, profundas. Então, Maimonides, no Guide of the Perplexes, falou de perfeição intelectual como a verdadeira perfeição humana, colocando-a como cabeça dos bens exteriores, da perfeição corporal, e da perfeição moral. Ele criou portanto uma prioridade no Judaísmo que conduziu ao intelectualismo e a uma saída rápida da ênfase religiosa e moral. De acordo com Elazar,


"Maimonides não estava satisfeito em indicar que a filosofia tinha valor autônomo. Em Minesh Torah, ele mostrou como o mitzvah de ahavat hashem, amor de Deus, só pode ser realizado na medida em que se apropria disciplinas intelectuais que não são exclusivamente da tradição judaica." [11]

Então, tanto no Cristianismo quanto no Judaísmo, bem como em nossos humanistas, a sabedoria política é procurada fora de Deus e de sua Palavra-Lei. A Escritura conta-nos, 


O temor do Senhor é o princípio da sabedoria, e o conhecimento do Santo a prudência. (Provérbios 9:10) 

Porque o Senhor dá a sabedoria; da sua boca é que vem o conhecimento e o entendimento. (Provérbios 2:6)

O temor do Senhor é o princípio do conhecimento; os loucos desprezam a sabedoria e a instrução. (Provérbios 1:7) 

Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos. Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus. (1 Coríntios 1:23,24)

Na Revolução Civil, o estado é a instituição salvadora, e isso é razão e poder; isso é sabedoria. A Revolução Civil é então uma revolução anti-cristã.

(Artigo extraído de "Sovereignty", de Rushdoony. Págs. 283-287)


1. Aristotle, The Politics (New York, NY: Modern Library, 1943), bk. 3, chap. 1-5, 125-136.
2. Ibid., bk. 1, 51.
3. Ibid., bk. 1, chap. 3, 55.
4. Ibid., bk. 3, chap. 10, 144.
5. Alexander Murray, Reason and Society in the Middle Ages (Oxford, England: Clarendon Press, [1978] 1986), 52.
6. Summa Theologica, bks. 2-3, q.65, a. 2, 2; bks. 1-3, q. 90, a. 3,3.
7. George Catlin, The Story of the Political Philosophers (New York, NY: Tudor Publishing Company, 1939), 52.
8. Otto Scott, Robespierre, The Voice of Virtue (New York, NY: Mason & Lipscomb, 1974), 195.
9. Ibid., 205.
10. F.W. Bussel, Christian Theology and Social Progress (London, England: Metheun, 1907), 32-33.
11. David Hartman, "Halakhah as a Ground for Creating a Shared Political Dialogue among Contemporary Jews", in Daniel J. Elazar, ed., Kingship and Consent: The Jewish Political Tradition and Its Contemporary Uses (Washingyon, DC: University Press of America, 1983), 359.

Rev. R. J. Rushdoony (1916-2001) foi o fundador do Chalcedon e um teólogo influente, especialista na relação entre Igreja e Estado, e autor de numerosos trabalhos relacionados à aplicação da Lei Bíblica na sociedade.

Tradução por Antonio Vitor.

Essa tradução foi autorizada por Mark Rushdoony, filho de Rousas John Rushdoony.

Soli Deo Gloria.

segunda-feira, 1 de junho de 2015


A REVOLUÇÃO CIVIL - PARTE 4
por R. J. Rushdoony.

Com o Iluminismo, a confiança na razão começou a tomar o lugar da fé Cristã e da Revelação. Primeiro, à Revelação era dado um lugar no esquema de coisas como necessária para as coisas pertencentes a Deus que estavam além da razão. Com o passar do tempo, o reino limitado do Cristianismo e da verdade revelada retrocederam, e a razão clamou por jurisdição total.

Esse desenvolvimento tem raízes na filosofia grega. Tanto para Platão quanto para Aristóteles, o pensamento teórico pertencia ao reino eterno das ideias, de forma e ser. "O deus aristotélico era puro pensamento teórico, o equivalente da forma pura. Sua contraparte absoluta era o princípio da matéria, caracterizada pelo movimento sem forma e eterno ou vir-a-ser." [1] 

A influência de tal pensamento tem sido muito forte nos séculos Cristãos e deformado a igreja em boa parte de sua história. Se alguém assume que o reino das ideias é o reino divino, então à medida em que o homem torna-se mais racional em todos os seus caminhos, ele aproxima-se do reino abstrato e definitivo do ser. Ele pode então tornar-se um filósofo-rei que traz a razão e o estado juntos para estabelecer a verdadeira justiça. Desde o Renascimento, e novamente com o Iluminismo, o ideal de filósofo-rei era comum entre pensadores humanistas e legisladores. Acreditava-se que o reino da razão e da liberdade, então aquela tensão dialética seria necessariamente contra a natureza, e a lei da razão como liberdade. Foi nesses termos que Karl Marx viu a esperança da humanidade em uma transição do reino da necessidade para o reino da liberdade, i.e., para o reino criado pelos líderes intelectuais dos trabalhadores.

Dooyeweerd descreveu adequadamente as implicações disso em Immanuel Kant (1724-1804): 


"Como Rousseau, Kant deu prioridade religiosa ao motivo religioso da liberdade do ideal de personalidade moderno. A liberdade, de acordo com Kant, não pode ser comprovada cientificamente. Para ele, a ciência está sempre vinculada à experiência sensorial, à 'realidade natural' como entendida no contexto limitado das próprias concepções de Kant. Liberdade e autonomia da personalidade não residem na natureza sensorial. São ideias práticas da 'razão' de uma pessoa; a realidade suprassensorial continua a ser uma questão de ." [2]

Como Dooyeweerd deixou claro, isso não era menos do que religião, não menos do que , do que o Cristianismo, enquanto radicalmente oposto a ele.

À medida em que essa fé na Razão desenvolveu-se, algumas nuances vieram à luz. Era uma fé muito harmonizada ao pensamento evolucionário grego, à visão do universo material, nas palavras de Dooyeweerd, como "movimento sem forma e eterno do vir-a-ser." [3] É a Razão que dá forma e direção a esse vir-a-ser, como Hegel viu. Consequentemente, Hegel formulou a doutrina da evolução cultural onde o estado torna-se a expressão central da Razão, Geist, ou Espírito, quando ele realiza essas ideias em forma material. Para Hegel, de acordo com Bussel, "A evolução é da Razão inconsciente para a Razão auto-compreensível, pela lei ou fórmula dos três estágios." (Esses três estágios, como Auguste Comte formulou-os em detalhes posteriormente, são a teológica ou fictícia; a metafísica ou abstrata; e a científica ou positiva). [4]

Esse é um desenvolvimento lógico. Se o estado Prussiano de Hegel era a expressão da Razão, inclusive, sua encarnação nos dias de Hegel, então a realizada Razão do estado era uma Razão inconsciente nas eras anteriores a Hegel e ao estado Prussiano. Tal perspectiva muda muito da sabedoria e Razão da mente consciente para a mente inconsciente. Nas palavras de Bussel, "Que nós possamos não repetir com significado exagerado: 'A coruja de Minerva toma seu vôo apenas quando os tons da noite estão se ajuntando.'" [5]

Quando Bussel escreveu, o trabalho de Sigmund Freud ainda não havia ganhado o prestígio internacional que lhe foi subsequente. Isso estava, entretanto, claramente na linha de pensamento grego de Kant e Hegel. Para a supremacia da Razão, Freud substituiu a supremacia da Razão inconsciente. Mas isso não foi tudo. Sem usar a palavra infalibilidade, Freud viu o inconsciente como infalível.

No reino civil, tal pensamento fundamentou a irracionalidade do estado moderno; o estado ainda era a encarnação da Razão, mas ele era agora um desenvolvimento da Razão científica, uma sociedade em planejamento em vez de uma ordem planejada. Desde que o futuro requereu uma modelagem em termos evolutivos, desenvolvendo a natureza das coisas, este futuro era uma parte do desconhecido, um aspecto do inconsicente social e científico.

Em resumo, nós podemos então dizer que a Revolução Civil tornou-se o triunfo do inconsciente. A justiça não governa mais o verdadeiro estado moderno mas, antes, o desenvolvimento da política social. Por isso tais considerações racionais como afirmações equilibradas são rejeitadas. A realidade presente deve dar caminho para a realidade futura, a Razão lógica para a Razão inconsciente. Uma parte dessa inclinação é a demanda por líderes políticos carismáticos que podem, como Hitler e Roosevelt, apelar à Razão inconsciente dos homens.

Em todo esse tipo de pensamento, o estado é soberano, e é a voz da Razão, ainda que a Razão esteja inconsciente e evoluindo. Como um resultado, o estado mdoerno está tornando-se cada vez mais a expressão da não-razão. Os caminhos do estado moderno estão cada vez mais ultrapassados!

A Revolução Civil desenvolveu-se então para um grande dilema. Ela vê o estado como soberano, e como Razão, mas aquela Razão agora é inconsciente. Nós somos deixados com uma soberania inconsciente e assustadora.

Na fé Bíblica, nas palavras de Elazar,


"Nenhum estado - uma criação humana - pode ser soberano. Classicamente, apenas Deus é soberano e Ele confia o exercício de seus poderes soberanos mediados pela Torah - como constituição para as pessoas como um todo." [6]

Esse desenvolvimento da Revolução Civil, e sua descristianização do Ocidente, tem sido ocasionado pela retração da igreja tanto quanto pelaa ofensiva humanista. D. V. Segre citou o professor Nathan Rotenstreich, do Departamento de Filosofia na Hebrew University, dizendo em 1959 que,


"Para ele, o fato de que isso (o Sionismo) ganhou um lugar no curso ordinário do dia-a-dia dos eventos históricos, significa que nesse momento - não especificado -, duas ou três gerações atrás, o fato da história 'deixou de ser história Cristã no sentido específico do termo e tornou-se a história política das nações e dos blocos políticos.'" [7]

O problema, contudo, é mais profundo do que duas ou três gerações atrás. Os homens solicitaram a solução para todos os tipos de problemas fora da religião, por exemplo, o problema da "insanidade" foi rastreado para a inatividade ou hiperatividade mental e a partir disso os frenologistas argumentaram contra a inatividade e hiperatividade mental. Em outras palavras, a questão não era moral, mas fisiológica. Escritores eruditos e populares também santificaram tal pensamento. Nas palavras muito esclarecedoras de Cooter, 


"A moralidade não era mais providência exclusiva da teologia; as leis da fisiologia estavam agora para compartilhar a administração e com uma indisputabilidade ainda maior. Convenientemente e copiosamente, o Reverendo John Barlow incorporou essa defesa de moralidade em Man's Power over Himself to Prevent or Control Insanity (1843). Citando de Conolly que "aqueles que mais exercitam as faculdades de suas mentes são menos sujeitos à insanidade," ele adicionou que "um cérebro fortalecido pelo exercício racional... tem pouca probabilidade de ser atacado por doença... e então a maior parte do mal é removido." [8]

A igreja estava disposta a recuar ao reino "espiritual", ou, para ser mais preciso, para a irrelevância. A autoridade foi manejada para as ciências e para o estado em uma área após a outra: 


"Em um tempo de confissão religiosa decadente e crescimento reverente para a ciência, físicos muito conscientemente ofereceram direção nas questões comportamentais que, como alguém explicou, 'o costume dos séculos erroneamente confiou exclusivamente à profissão de teologia.'" [9]


A igreja, contudo, não tem direito de desistir do que pertence a Deus. Ela tem um dever de reclamar cada área para Cristo. Por causa de seu retrocesso, agora, como sempre, "Porque já é tempo que comece o julgamento pela casa de Deus: e se ele começa por nós, qual deverá ser o fim daqueles que são desobedientes ao evangelho de Deus?" (1 Pe 4:17).


(Artigo extraído de "Sovereignty", de Rushdoony. Págs. 277-281)

1. Herman Dooyeweerd, Roots of Western Culture (Toronto, Canada: Wedge Publishing Foundation, 1979), 34. [N.doT., no Brasil: Raízes da Cultura Ocidental, ed. Cultura Cristã, 49.]
2. Ibid., 171-72. [N.doT.: ibid., 194.]
3. Ibid., 34. [N.doT.: ibid., 49.]
4. F. W. Bussell, Christian Theology and Social Progress (London, England: Methuen, 1907), 119-20.
5. Ibid., 123.
6. Daniel J. Elazar, "Introduction," in Daniel J. Elazar, ed., Kinship and Consent: The Jewish Political Tradition and Its Contemporary Uses (Washignton, DC: University Press os America, 1983), 6.
7. D. V. Segre, "The Jewish Political Tradition as a Vehicle for Jewish Auto-Emancipation," in ibid., 295.
8. Robert Cooter, "Phrenology and British Alienists, ca. 1825-1845," in Andrew Scull, ed., Madhouses, Mad-Doctors, and Madmen: The Social History of Psychiatry in the Victorian Era (Philadelphia, PA: University of Pensylvania Press, 1981), 79.
9. Barbara Sicherman, "The Paradox of Prudence: Mental Health in the Gilded Age," in ibid., 218.

Rev. R. J. Rushdoony (1916-2001) foi o fundador do Chalcedon e um teólogo influente, especialista na relação entre Igreja e Estado, e autor de numerosos trabalhos relacionados à aplicação da Lei Bíblica na sociedade.

Tradução por Antonio Vitor.

Essa tradução foi autorizada por Mark Rushdoony, filho de Rousas John Rushdoony.

Soli Deo Gloria.