sábado, 5 de dezembro de 2015

A PARANOIA INTERPRETATIVA ou UMA RESPOSTA A LUÍS FERNANDO PESSOA

A PARANOIA INTERPRETATIVA, ou UMA RESPOSTA A LUÍS FERNANDO PESSOA
por Vitor Barreto.
Revisão: Fabrício Tavares.


[Nota: Infelizmente, o texto a que nos referimos é fruto de todo um trabalho que tem sido construído dentro do conservadorismo brasileiro, especialmente em sua matriz católica, contra o protestantismo. Que ele sirva de alerta para os líderes reformados no nosso país.]

A onda conservadora tupiniquim, ainda tão adolescente – se é que chegou na adolescência –, mostra os ares de sua imaturidade no texto “Calvino e a Mentalidade Revolucionária”, escrito pelo senhor Luís Fernando Pessoa, professor de História Antiga e Medieval da Universidade Estadual de Maringá, PR. Esperava eu, quando me foi enviado o referido texto, encontrar algum trabalho acadêmico respeitável e não uma peça de desinformação tão supostamente bem intencionada.

A tese do senhor Pessoa é que João Calvino, reformador francês, que influenciou indiretamente o desenvolvimento político religioso e cultural de países conservadores como a Inglaterra e os EUA, supostamente enquadra-se dentro das características apontadas pelo professor Olavo de Carvalho dentro do fenômeno que este denomina de “mentalidade revolucionária”. Não convém entrar no mérito da teoria do professor de Carvalho a respeito da mentalidade revolucionária, que creio pessoalmente ser verossímil. Me ocuparei, destarte, à tentativa imperita de interpretar a pessoa de João Calvino na tese do referido professor universitário.

O professor introduz o texto com a exposição da inversão do tempo histórico como uma das características da mentalidade revolucionária. Em relação a João Calvino, contudo, isso não significa absolutamente nada. Calvino não era como os camponeses revolucionários da Alemanha ou como os anabatistas que perturbaram a ordem civil na Europa. Em primeiro lugar, o reformador de Genebra não acreditava em um "progresso civilizacional contínuo" como creem os revolucionários, e muito menos julgava-se um "eleito" no sentido de impulsionar tal progresso  [seria por demais desgastante e vergonhoso ter que explicar que Calvino não inventou a doutrina da eleição, além de desviar um pouco do tema; por essa razão não tratarei do assunto]. Para Calvino, Deus sempre punirá um povo na medida em que este se fizer condenável diante de Sua justiça; o único progresso que Calvino assevera sem dúvidas é o da expansão do Reino em razão das profecias que garantem que o Evangelho se difundirá por todo o mundo. Os camponeses e anabatistas, contudo, desejavam revolucionar as relações sociais. Muitos deles criam que o Reino de Deus seria estabelecido pelas mãos das pessoas naquele momento. Foi contra eles que Calvino escreveu:

"De princípio, antes que entremos na própria matéria, deve-se levar em conta aquela distinção por nós anteriormente estabelecida, de sorte que, a um tempo, não misturemos imprudentemente, o que comumente sucede a muitos, estas duas coisas que têm natureza inteiramente diversa. [...] Mas quem sabe discernir entre o corpo e a alma, entre esta vida presente e a transitória, e aquela vida futura e eterna, não terá dificuldade em entender que o reino espiritual de Cristo e a ordem civil são coisas muitíssimo distintas entre si. [...] nos lembramos de conter dentro de seus limites toda esta liberdade que nele nos é prometida e oferecida. [...] não importa em que condições estejas entre os homens, sob leis de que país vivas, uma vez que o reino de Cristo está mui longe de se situar nessas coisas. [...] Ora, a respeito do que alegam, que deve haver na Igreja de Deus tal perfeição que façam as vezes de quantas leis demandem, tal imaginação é uma insensatez, pois jamais poderá existir tal perfeição em qualquer sociedade humana." [1] 

A não ser que um leitor interprete desonestamente, ninguém pode negar que Calvino não confundia as "reformas sociais" que tentou promover para tirar Genebra do caos civil em que se encontrava com a tentativa de impor a própria vontade para a criação de um "futuro melhor", como se assim buscasse o Reino de Deus dentro de um progresso histórico, como defendia Shleiermacher e outros. Possíveis otimismos em relação ao futuro, convivendo ao mesmo tempo com o pessimismo, não são de forma alguma incompatíveis, caso resguardados seus devidos aspectos. Ninguém chamaria a Igreja de Roma de revolucionária (se pressupuséssemos preguiçosamente seu argumento histórico) quando lembramos que o monge Telêmaco findou as lutas de gladiadores, ou que a fé cristã ajudou a valorizar o casamento como uma instituição para os escravos, ou que Tomás de Aquino tenha criticado a prática da tortura, ou que o monge hoje conhecido como Bonifácio derrubou o carvalho sagrado dedicado ao deus Thor no processo de evangelização das tribos germânicas, etc. Semelhantemente, Calvino pediu para que Servetus não fosse executado no fogo por sua heresia (por ser a fogueira por demais cruel), etc. O reformador tinha um padrão transcendente imutável independente de si mesmo, ao qual buscou se adequar. Que horrível crime, esse, não?! Ao ler o texto do professor Luís, temos a impressão de estudar um esquizofrênico que teve a sorte de ser rigorosamente lógico, e, por acaso, tinha amplo conhecimento da Patrística e das Escrituras. O professor Luís Fernando Pessoa ataca ferrenhamente uma caricatura, um espantalho, como veremos a seguir.

O argumento gira em torno da seguinte citação de Calvino que Luís acredita conter uma evidência da mentalidade revolucionária:


“Pois, ainda que Deus tenha consagrado minha alma ao zelo, tanto da propagação de seu reino como do serviço para o proveito comum, estou também dignamente cônscio de que terei Ele e os anjos como testemunhas, desde que recebi o ofício de doutor na Igreja, de a nada mais ter-me proposto senão fazer avançar a Igreja, afiançando a sincera doutrina da piedade” (CALVINO, 2007, p.12)"

Para o professor, a frase supracitada do reformador apresenta uma característica da mentalidade revolucionária pela “certeza de que ele está ao lado de Deus e que é Ele mesmo quem o justifica em sua tarefa de levar adiante o que considera como a verdadeira religião“. Uma associação dessa natureza leva-nos certamente a vários problemas – por que não dizer? – hirsutos, já que tal crença pode ser reconhecida em todos os profetas, apóstolos, missionários, bispos católicos, padres e pastores evangélicos. É próprio do adepto fiel de uma religião crer que ele segue a religião verdadeira, ou haveríamos de ser demasiado estúpidos pra crermos que o cristianismo é a religião verdadeira, mas que, ao invés, deveríamos difundir o budismo pelo mundo afora, ou viver como se não crêssemos em Cristo. Em contrário, vejamos o que escreveu o profeta Isaías (50:5-9) que citarei na tradução católica para evitar possíveis lamúrias. 

“{o Senhor Deus abriu-me o ouvido} e eu não relutei, não me esquivei. Aos que me feriam, apresentei as espáduas, e as faces àqueles que me arrancavam a barba; não desviei o rosto dos ultrajes e dos escarros. Mas o Senhor Deus vem em meu auxílio: eis por que não me senti desonrado; enrijeci meu rosto como uma pedra, convicto de não ser desapontado. Aquele que me fará justiça aí está. Quem ousará atacar-me? Vamos medir-nos! Quem será meu adversário? Que se apresente! O Senhor Deus vem em meu auxílio: quem ousaria condenar-me? Cairão em frangalhos como um manto velho; a traça os roerá.”

O profeta Isaías julgou-se no “direito” (para usar o termo do homônimo do poeta português) de contestar todo o caminho que o povo de Israel seguia, e assim trazê-los para o padrão veterotestamentário da Lei de Deus. Isaías cria-se vocacionado por Deus para tal missão que julgava estar absolutamente correta. Que coisa horrenda, não? Um verdadeiro revolucionário! Ou talvez um mero crente. Seria curioso o honrado Luís, aparentemente aluno do Olavo de Carvalho, fazer o mesmíssimo julgamento contra um dos maiores santos católicos romanos, São Francisco de Assis. Sim, porque Francisco (aparentemente tão respeitado e recortado em suas opiniões por católicos romanos tão ingênuos quanto um Brás Cubas ou um Dom Quixote) julgou-se escolhido por Deus para uma missão através de uma experiência sobrenatural, que deu-lhe fé tal que fê-lo viver como um asceta confuso em nome de um padrão moral que certamente não é bíblico, e a quem Eric Voegelin diz ser o “símbolo da revolução”. [História das Ideias Políticas – v. II, p. 161] Confesso, sinceramente, que gostaria que o professor de Maringá conduzisse adiante tal empreitada – ou talvez haja algum tipo de limitação de conteúdo entre os alunos do professor, uma espécie de agenda de opiniões proibidas.

Depois de afirmação tão curiosa, a próxima assertiva do mesmo parágrafo será dividida em duas partes por questões didáticas. Primeiro ele diz que “Calvino desenvolve a certeza de que está predestinado a corrigir a sociedade através de uma transformação social profunda”. O termo "profunda" aqui é subjetivo e é de inteira responsabilidade do autor. Calvino queria sim, promover transformações sociais, mas não como ele supõe. Quando Calvino fala em "expandir o reino", ele refere-se primeiramente à expansão do próprio Evangelho, não da transformação social em si, que seria obra do Espírito Santo através da pregação da Palavra, coisa que todo cristão deveria supor naturalmente. Como dissemos no parágrafo anterior, o profeta Isaías queria promover uma transformação social "profunda" em Israel: lançar fora toda idolatria, corrupção espiritual dos sacerdotes e a maldade da monarquia. Ora, outro tipo de mudança social foi promovido pelo apóstolo Paulo, embora indiretamente, quando prejudicou a economia da cidade de Éfeso com sua pregação (Atos 19). A cidade de Éfeso era um centro de culto à deusa Ártemis, e a conversão dos cristãos significou prejuízo financeiro para os forjadores de ídolos. Seria necessário supor que uma religião não pode de forma alguma influenciar a vida social de uma comunidade para julgar qualquer influência como revolucionária. Talvez o professor creia, ainda que irrefletidamente, que ser cristão é uma mera intuição intelectual que não pode causar transformações sociais, de maneira que não é possível ver a si próprio como um missionário da obra de Deus. De semelhante modo, talvez ele entenda que a fé cristã tenha que subsistir apenas subjetivamente, não tenho absolutamente nenhuma opinião acerca das relações sociais (quando, na realidade, tem). Se assim o for, temos perante nós uma situação menos do que existencialista. Calvino não aboliu nenhum tipo de relação social, mas as adequou ao padrão cristão, da mesma forma que os profetas do Antigo Testamento exigiam que o povo desviado retornasse ao padrão do Pacto. Ora, sabe-se, para citar mais um exemplo, que, no retorno do cativeiro babilônico, o povo hebreu, tomando a Lei Mosaica como padrão, desfez todos os casamentos entre os judeus e as mulheres pagãs. O casamento entre judeus e membros de outras religiões era proibido (Esdras 9 e 10). Calvino não faz nada sequer parecido com isso. Esdras, que também cria ter a responsabilidade de organizar o povo por vocação divina, era um revolucionário? 

Vamos então à segunda parte do recorte. O sr. Luís afirma que Calvino desejava promover a tal “transformação social mediante a concentração de poderes em suas mãos”. Gostaríamos de saber a partir de que material o referido professor universitário tomou conhecimento da vida de Calvino. Estamos falando de modo sincero, porque até mesmo na leitura mais superficial das Institutas é possível notar justamente o contrário do que o professor afirma. Calvino não tinha o poder concentrado em suas mãos, nem almejou tal coisa. Este mito pueril é comum entre apologistas papistas de fóruns de quinta categoria, mas não é de se esperar de um professor universitário (muito menos um professor de História!). Prossigamos às informações contra a desinformação:


1. O reformador, a priori, não desejava sequer ser pastor. Seu intuito original era ser um teólogo recluso. Foi Guilherme Farel, outro reformador, quem o convenceu, mediante uma imprecação, a aceitar o chamado para o pastorado. Guilherme também havia iniciado a Reforma em Genebra antes da chegada do francês, e a cidade, então, vivia um caos.  

2. Calvino era francês, não cidadão suíço. Sua autoridade em Genebra era apenas indireta, tomando forma de um conselheiro moral, na melhor das hipóteses. Ele não foi nunca um membro governante do Conselho e, de fato, não poderia ser membro no corpo governante mais alto, pois apenas cidadãos de Genebra (os nascidos em Genebra como cidadãos) podiam ocupar tal cargo.

3. Calvino defendia a separação entre a Igreja e o Estado, mas subjugava ambos à religião cristã. A religião cristã estabelece a função das autoridades civis. Contudo, isso jamais seria forçado, visto que, para Calvino, um cristão deveria reconhecer a autoridade dos magistrados, exceto nos casos em que o governo o obrigasse a cometer pecados. E isso incluiria o governo civil de Genebra, que não era sujeito a Calvino, como vimos. Para Calvino, a prudência conduziria exatamente à conclusão contrária: afinal, a divisão dos poderes é mais prudente. Embora reconhecesse que a Bíblia não impõe um modelo estatal específico, Calvino prefere a aristocracia ou a democracia, ou uma mistura de ambos, visto que, ainda que devendo respeito aos monarcas, entendesse que uma monarquia pode ser mais perigosa por concentrar os poderes nas mãos de um único indivíduo. A divisão dos poderes, portanto, seria uma garantia de proteção da ordem civil. Portanto, como Calvino, que discorreu mais sobre os deveres dos governantes do que sobre os seus direitos, exigia para si a autoridade, se ele mesmo ensinava o contrário disso? Não foi por acaso que em todos os países onde o calvinismo alcançou certa influência, ocorreu exatamente o inverso do que o professor Luís entende: foram os calvinistas que tiraram a Inglaterra do Absolutismo e diminuíram o autoritarismo na Holanda, por exemplo. É o famoso Alexis de Tocqueville, reconhecido por qualquer conservador, quem aponta a influência dos puritanos na formação dos EUA. Ele diz: 

"... os imigrantes da Nova Inglaterra levavam consigo admiráveis elementos de ordem e de moralidade; entravam pelo deserto acompanhados de suas esposas e de seus filhos. Mas o que os distinguia, sobretudo, de todos os outros [colonizadores] era a própria finalidade de sua empreitada. Não tinham abandonado o seu país forçados pela necessidade; deixavam para trás uma posição social cuja perda seria lamentável e meios de vida garantidos; tampouco passaram ao Novo Mundo a fim de ali melhorar a sua situação ou de fazer aumentar as suas riquezas; arrancavam-se às doçuras da pátria para obedecer a uma necessidade puramente intelectual; expondo-se às misérias inevitáveis do exílio, desejavam fazer triunfar uma ideia. [...] As colônias inglesas, e foi essa uma das principais causas da sua prosperidade, sempre gozaram de maior liberdade interior e de maior independência política que as de outras nações; em nenhuma parte, porém, foi esse princípio de liberdade mais completamente aplicado que nos Estados da Nova Inglaterra." [2] 


Ainda, segundo Francis Schaeffer, John Locke simplesmente secularizou, sobre uma base iluminista, princípios políticos de puritanos como Samuel Rutherford. Schaeffer explica isso partindo da influência do reformador de Estrasburgo, Martin Bucer: 

“O modelo constitucionalista, implícito na política da Igreja Presbiteriana, não era só um exemplo, mas um aprendizado para os princípios da limitação política. E, mesmo naqueles lugares em que, como no caso da Inglaterra, o presbiterianismo como tal não vingou, suas ideias políticas acabaram sendo difundidas por meio de múltiplos e complexos grupos na vida pública inglesa, assumindo o papel criativo na diminuição do poder dos reis ingleses. Como resultado, os cidadãos comuns acabaram descobrindo uma forma de se livrar do poder governamental arbitrário, em uma época em que todos os países estavam caminhando rumo a alternativas políticas absolutistas (...) Muitas coisas boas na Inglaterra vieram da Escócia. Temos em um livro escrito por um escocês, Samuel Rutherford (1600-1661), o mais claro exemplo de um dos princípios da Reforma, que é o controle político da soberania por parte do povo [embora não haja aqui ainda o conceito de soberania popular]. O livro chama-se Lex Rex: a lei é Rei. (...) A obra de Samuel Rutherford e a tradição que ela encarnava tiveram grande influência sobre a Constituição dos Estados Unidos, por mais que os povos anglo-saxões de hoje tenham esquecido amplamente. A primeira foi John Wisterspoon (1723-1794), um presbiteriano que seguia o Lex Rex de Rutherford à risca usando os seus princípios pra base da Constituição e o estabelecimento de formas e liberdades. (...) O segundo veiculador da influência de Rutherford foi John Locke (1632-1704) que, embora secularizando a tradição presbiteriana, foi fortemente influenciado por ela.” [3] 

4. João Calvino não concentrava poderes nem mesmo dentro da igreja reformada que ele ajudou a construir. Foi, aliás, o próprio reformador que, levando em conta o modelo de governo eclesial bíblico de presbíteros (à luz da autoridade crescente do bispo a partir do segundo século em virtude da luta contra as heresias), criou um modelo de governo descentralizado. Calvino estabeleceu quatro ofícios na Igreja: pastores, mestres (doutores), presbíteros e diáconos. O poder de influência da Igreja em Genebra era estabelecido pelo “Venerável Conselho de Pastores”, que era formado, inclusive, por leigos, possuindo uma função meramente eclesial. Era o Consistório, ou Presbitério, que tinha obrigação de manter a disciplina entre os cristãos. Foi daqui que nasceu o outro mito em torno de Calvino sobre a tal “rede de espionagem”. Infelizmente, para estes, o Consistório não dispunha do direito de punição civil. [4] A cidade era conduzida por meio do governo dos presbíteros, todavia, Calvino não foi um inovador. Em muitas cidades, algumas leis foram ignoradas e outras foram “acrescentadas”, tão somente. A única inovação foi que essas leis começaram a ser aplicadas. Deveríamos considerar Calvino revolucionário por não ser “brasileiro”? Deveríamos considerar o Antigo Israel uma nação revolucionária por proibir a prostituição escancarada?   

O católico Richard Dawson, reconhecido dentro do meio conservador, afirma com todas as letras que Calvino não era um revolucionário.  

“Assim, após desfrutar de uma geração livre e individualista, de maneira quase irrestrita, o protestantismo trouxe de volta os padrões mais estritos de conformidade religiosa, tanto na ideologia quanto no comportamento. A tensão era severa, mas a força interior da disciplina genebrina deu às Igrejas Calvinistas o poder de não resistir somente à pressão hostil, mas a reagir com sucesso à agressão e à ação revolucionária. Calvino não era um revolucionário político. Respeitava os direitos da autoridade civil, e sempre teve esperanças de que o rei pudesse tolerar a religião reformada, ou mesmo que se tornasse seu protetor.” [5]

E o próprio Dawson ainda informa sobre uma carta escrita por Calvino para o almirante Garpard de Coligny em 1559 onde afirmou que “era melhor todos perecerem centenas de vezes do que o Evangelho ficar exposto ao opróbio como causa da guerra civil e da carnificina.” [6]

5. Ademais, há inúmeras evidências das controvérsias entre Calvino e os Magistrados Civis e até mesmo com outros reformadores. Não sabe o digníssimo professor que Calvino foi expulso de Genebra durante 3 anos, permanecendo em exílio – e não no propósito de estabelecer alguma revolução (que pena!) – desde então? Findado o período de três anos, no qual contraiu matrimônio, foi convidado pela própria cidade de Genebra a retornar e auxiliar na organização da cidade conturbada. Em outra ocasião, para citar um exemplo, Calvino discordou da opinião de diversos membros da igreja reformada e dos Magistrados, todos contemporâneos seus, sobre a festividade do Natal. Isto está registrado em uma carta de Calvino ao pastor da cidade de Berna, Jean Haller, de 2 de janeiro de 1551. Nela, Calvino escreveu: “Antes da minha chamada à cidade, eles não tinham nenhuma festa exceto no dia do Senhor. Desde então eu tenho procurado moderação a fim de que o nascimento de Cristo seja celebrado”. [7] E mais: “Calvino procurou atenuar a severidade destes decretos [sobre a Santa Ceia] fazendo arranjos para que as datas da comunhão variassem em cada igreja da cidade, provendo assim oportunidade para a comunhão mais frequente do povo, que podia comungar em uma igreja vizinha”. [8] 

Entre “procurar moderação” e estabelecer ditatorialmente, como sugerem muitos apologetas romanistas e até mesmo Olavo de Carvalho, creio que há a mesma diferença existente entre o casamento e a escravidão sexual. Em contrapartida, seria a influência de Calvino tão incontestável se seus herdeiros na Escócia tivessem abolido temporariamente o Natal em desacordo com ele mesmo? 

O conflito entre a Igreja de Genebra e os Magistrados torna-se ainda mais evidente quando lemos que, logo depois da morte de Calvino, os Magistrados exigiram para si o direito de excomunhão, em virtude da inconformidade da teoria da relação entre Estado e Igreja de Calvino com as estruturas sociais existentes. Para Calvino, tal direito cabia à Igreja, enquanto os Magistrados preferiram ficar com a opinião de outros reformadores como Zwínglio. Como Richard C. Gable escreveu:


“Em setembro de 1548, o Conselho da cidade determinou que os pastores podiam apenas exortar o povo, mas não excomungá-lo. Em dezembro, o Conselho prosseguiu em suas tentativas de usurpar o poder dando a Guichard Roux a permissão de receber a Ceia do Senhor, após ter sido proibido de fazê-lo pelo Consistório. O próprio Calvino foi admoestado pelo Conselho no dia 24 de setembro de 1548 por causa de uma carta que tinha escrito, criticando os magistrados de Genebra. Após vários protestos e esforços dos pastores, o Conselho finalmente concordou, em 24 de janeiro de 1555, em conceder ao Consistório os direitos que lhe cabiam conforme o estabelecido pelas Ordenanças Eclesiásticas de 1541. Basicamente, as Ordenanças Eclesiásticas estabeleciam o padrão pelo qual a Igreja funcionaria. Foram estabelecidos o horário e o número de cultos na cidade, bem como a frequência dos pastores aos encontros e outras regulamentações, tais como a excomunhão.” [9]

Parece incontestável que Calvino foi um “conciliador”, não um ditador revolucionário. Creio que não é necessário tecer comentários sobre a seguinte frase: “o da iluminação divina do indivíduo que se vê a si mesmo como o portador de uma mensagem transformadora e necessária para toda a humanidade.” Afinal, o Evangelho é exatamente isso. O problema é saber se o que Calvino crê é o Evangelho verdadeiro ou se a verdadeira religião cristã consiste em autoflagelações parecidas com as praticadas pelo islamismo ou com o ascetismo monástico neoplatônico que em termos práticos difere muito pouco do ascetismo das seitas gnósticas. Discutir isso, contudo, não é o cerne deste ensaio.

O próximo parágrafo é especialmente interessante.


“Quando Calvino afirma “ainda que Deus tenha consagrado minha alma ao zelo, tanto da propagação de seu reino como do serviço para o proveito comum” ele utiliza um tipo de raciocínio que o aproxima da Divindade e o faz não apenas mais próximo dela como também seu principal e provavelmente único representante aqui na terra. Ser um representante de Deus, nesse sentido, significa fazer o possível para que Sua vontade seja realizada.”

Sobre isso, primeiro devemos atentar para o fato de que ter Deus como tutor espiritual é a crença do cristianismo desde, digamos, sempre. Afinal, a Igreja Católica Romana defende a mesmíssima coisa. Não é a Igreja de Roma responsável para fazer “o possível para que Sua Vontade seja realizada?”. Atenhamo-nos ao papa: ora, não seria o papa um consagrado por Deus? O papa não é, para voltar às palavras de Luís, “um representante de Deus”? Todos os papas Curialistas reclamaram posição semelhante. Decerto que Calvino não é um papa e jamais considerou-se assim, nem foi considerado por quem quer que seja, o que torna-se evidente a partir das informações colocadas há pouco. O reformador de Genebra nunca foi papa e nunca foi tido como infalível, e isto é evidente, noutro exemplo, pelo calendário festivo e pela forma de culto da Igreja Reformada na Escócia, capitaneada por um pastor pessoalmente doutrinado por Calvino, John Knox. Na Escócia, muitas opiniões de Calvino não foram seguidas. Como ele mesmo diz, João Calvino era um “doutor”, um “mestre”, ofício esse que aliás foi reconhecido pelo apóstolo Paulo em Efésios 4:11, e que muitos católicos romanos também creram ser.

O maior disparate é, a partir da aparente ignorância das doutrinas calvinistas, entender que “parece claro que se o indivíduo acredita firmemente que está representando o próprio Deus entre os homens, aqui, no que seria o vale de lágrimas de nossa história, não seria de se imaginar que o mesmo sujeito acreditasse que houvesse entre os próprios homens – dentre os quais ele é um –, pelo menos um que o pudesse questionar ou rebater.” Não, sr. Luís Fernando. Não parece nada claro, exceto para uma mente tendenciosa e tomada por tanta desinformação. 

Como ficou claro (e, desta vez, efetivamente claro) por tudo o que escrevi até aqui, Calvino jamais disse que era inquestionável. Fica ao autor o ônus da prova, alguma afirmação que sustente seu disparate. Tomás de Aquino, idolatrado por alguns, considerava a si mesmo inquestionável pelo fato de não ter deixado nenhum registro oficial do contrário? Se contudo, o reformador tinha uma argumentação sólida e coerente, seus críticos deveriam proceder com uma investigação mais prudente a fim de verificar se ele não está provavelmente certo. A menos que alguém possa ser devidamente corrigido, não há razão alguma para que este creia estar errado em alguma proposição, ainda que não considere a si mesmo como sendo infalível. Apesar de seus herdeiros serem chamados "calvinistas", a exegese bíblica avançou desde o reformador e alguns de seus pontos são contestados por diversas vertentes. Alguns questionam um aspecto da doutrina do batismo de João Calvino, outros divergem a respeito da eclesiologia ou da escatologia. Porém, mesmo um teórico anti-Reforma como Eric Voegelin afirmou que a obra do reformador francês possuía uma “unidade inteligível de significação ... como a defesa que um advogado faz de uma causa.” [10] As opiniões negativas de Voegelin sobre Calvino e a Reforma, ora baseadas nos mesmos mitos apologéticos anti-calvinistas dos quais os católicos abusam, ora de interpretações tão desastradas quanto essa do professor Luís (o cientista político Hans Kelsen, que foi professor de Voegelin, escreveu uma crítica à interpretação tendenciosa que Voegelin faz do puritanismo a partir da opinião de um detrator e de leituras enviesadas do filósofo), ora por causa de seus pressupostos. Voegelin era influenciado pela neo-ortodoxia e tinha Karl Barth e Rudolph Bultmann como suas referências de “cristianismo”. Por isso, Voegelin crê que “nenhuma doutrina bíblica pode ser extraída do texto [bíblico]”, ou que “a Cristandade dos Evangelhos sinóticos, do Evangelho de São João, das Epístolas de São Paulo e da Epístola aos Hebreus representa variantes que não podem ser organizadas numa doutrina sistemática sem contradições” [11]. Afirmações dessa natureza são coerentes com a crença que Karl Barth tinha em paradoxos. Ademais, Voegelin é tomado pelo dualismo natureza-graça, e acredita que o Antigo Testamento e a filosofia grega são na verdade os “dois antigos testamentos”, como enfatiza Mendo Castro em seu livro “A Filosofia Civil de Eric Voegelin”. Diga-se de passagem, opinião semelhante jamais foi esposada por qualquer cristão verdadeiro. Já os gnósticos – que ironia do destino! – criam em algo mais próximo disso. Afinal, Voegelin parece entender a encarnação de Cristo como a revelação daquilo que a filosofia grega buscava. É curioso, no fim das contas, que o próprio Voegelin, depois de acusar toda e qualquer criatura viva ao seu redor de “gnosticismo” em sua “Nova Ciência da Política”, foi chamado de “gnóstico” por vários estudiosos. Voltando a Calvino, Voegelin parece mais fascinado por investigações metafísicas, às quais atribui caráter de “genuína intelectualidade”; o que faz parecer que a tentativa de organizar uma doutrina que, para ele, não pode ser organizada de forma alguma, configura-se realmente como o trabalho de um burro. Talvez Calvino fosse burro, então. Ou talvez Voegelin fosse só um incrédulo que supervaloriza a própria opinião, não muito diferente dos “burros” – no julgamento dele – Lutero e Calvino.

Talvez o querido professor Luís Fernando Pessoa tenha o mesmo problema de interpretação paranoica que Voegelin teve ao estudar a Reforma e os Puritanos, o que lhe valeu críticas até irônicas. Se isso não é causa de um vício apologético católico, talvez o seja de demasiada credibilidade sem crítica acadêmica às opiniões de um certo alguém, ou talvez ainda o efeito de algum intoxicante chá de cogumelos, que o conduziu a uma paranoia que vê mentalidade revolucionária em tudo, assim como Eric via gnosticismo em tudo (até nos apóstolos e profetas). De seu texto, certamente, não há nada que se aproveite. 

1. João Calvino, "As Institutas da Religião Cristã", Vol. IV, XX, I-III, p. 453.
2. Alexis de Tocqueville, "A Democracia na America", Edit. Itatiaia Ltda. e Edit. da Universidade de São Paulo, 1977, p. 33-36.
3. Francis Schaeffer, “Como Viveremos”, p. 65-67.
4. Citado por Richard C. Gamble em “Calvino e Sua Influência no Mundo Ocidenal”; Philip Schaff, History of the Christian Church, vol. 8, (1960; ed. reimpr., Grand Rapids: Eerdmans, 1979, pp. 481-482); James Mackinnon, Calvin and the Reformation (Londres: Longmans. Green, 1936, p. 77-81.
5. Richard Dawson, “A Divisão da Cristandade”, p. 163.
6. Ibid., p. 165.
7. Citado pro Solano Portela em “Calvino Contra o Natal?”; Selected Works of John Calvin: Tracts and Letters, editadas por Jules Bonnet, traduzida para o inglês por David Constable; Grand Rapids: Baker Book House, 1983, 454 páginas; reprodução de Letters of John Calvin (Philadelphia: Presbyterian Board of Publication, 1858).
8. Ibid.; William D. Maxwell, El Culto Cristiano: sua evolución y sus formas, p. 140-141], costume este que se tornou comum na Escócia. [Cf. William D. Maxwell, El Culto Cristiano: sua evolución y sus formas, p. 141.
9. Richard C. Gamble, “Calvino e sua Influência no Mundo Ocidental” (Organizado por W. Stanford Reid), p. 90.
10. Eric Voegelin, “História das Ideias Políticas – Vol. IV: Renascença e Reforma”, p. 321.
11. Ibid., “História das Ideias Políticas – Vol. IV: Renascença e Reforma”, p. 320.