quarta-feira, 7 de junho de 2017

UM COMPROMISSO COM A IRRELEVÂNCIA CULTURAL


R. J. Rushdoony não hesitou em esclarecer a inevitável relação entre escatologia e ética. Ele percebeu que as doutrinas dos puritanos, unindo pós-milenismo e pactualismo (até 1860), a despeito dos eventuais equívocos e fantasias que permearam suas interpretações, moveu-os com um espírito de liderança e ação, e com esperança para o futuro. Aquele espírito tornou-se parte da identidade americana. Em contraste, as escatologias pessimistas têm servido para transformar a igreja de Cristo em uma espécie de "convento dentro do mundo", um local de escape e terapia espiritual, sem qualquer influência na sociedade. A ascensão do pessimismo escatológico e do pietismo evangélico, especialmente depois do Segundo Grande Avivamento, coincidiu historicamente com a crescente perda de confessionalidade das escolas cristãs naquele país em favor das escolas públicas, idealizadas pelo humanismo religioso e em especial pelos unitaristas. Trata-se de uma derrota apriorística. Escrevendo sobre a diferença entre a escatologia inicial do puritanismo e o pré-milenismo, George Shepperson, um estudioso não-cristão, disse que "o pré-milenismo sempre significa uma profunda desconfiança das forças ortodoxas na reforma aberta na sociedade". [Citado por Rushdoony em "O Plano de Deus para a Vitória".] Ora, por que reformar um mundo condenado à degeneração implacável? O dispensacionalismo, em especial, acabaria por criar uma tendência para entender-se a religião de forma evolucionista, com uma ética mutável.
O dispensacionalismo tem sido uma fonte de fraqueza para a igreja de Cristo, que tem não apenas nos levado à derrota política e cultural, mas que tem nos impedido sequer de lutar. Curioso é notar que um segmento do pentecostalismo brasileiro, embora seja nominalmente pré-milenista, é pós-milenista de fato. O triunfalismo pentecostal tem servido para equilibrar a tendência escapista e conformista do dispensacionalismo e, para aqueles que acompanham o que não sai necessariamente na grande mídia mais de perto, tem tido alguns resultados. O pentecostalismo brasileiro, sim, tem sido inconsistente nesse ponto. E isso pode ter um lado bom. 

Essa é a primeira aparição de Gary North neste blog. Soli Deo Gloria.

UM COMPROMISSO COM A IRRELEVÂNCIA CULTURAL


por Gary North

“Vedes aqui vos tenho ensinado estatutos e juízos, como me mandou o Senhor meu Deus; para que assim façais no meio da terra a qual ides a herdar. Guardai-os pois, e cumpri-os, porque isso será a vossa sabedoria e o vosso entendimento perante os olhos dos povos, que ouvirão todos estes estatutos, e dirão: Este grande povo é nação sábia e entendida”. (Deuteronômio 4.5-6).


Deus disse a Moisés que a obediência de Israel às leis de Deus seria um testemunho para as nações. A nação de Israel se tornaria um farol para o mundo. Existe uma conexão inquebrável entre a obediência nacional e o evangelismo mundial. Jesus apelou para essa mesma idéia quando descreveu a Igreja como uma cidade em uma colina (Mateus 5.14). Mas essa conexão entre a obediência institucional, as bênçãos institucionais de Deus e o evangelismo mundial é negada pelos dispensacionalistas. “Isso foi para Israel, não para a Igreja”. Mas e as palavras de Jesus sobre a cidade em uma colina? “Isso foi antes da crucificação. Isso também era para Israel: o reino dos céus, não o reino de Deus. Isso não era para a Igreja”. Então, o que é para a Igreja, eticamente falando? Eles nunca dizem. Em mais de 160 anos, nenhum autor dispensacionalista publicou um livro sobre os detalhes da ética social do Novo Testamento.

O resultado, nas palavras do autor dispensacionalista Tommy Ice, é que “os pré-milenaristas sempre estiveram envolvidos no mundo presente. E, basicamente, eles pegaram as posições éticas de seus contemporâneos”.[1] A pergunta é: Quão confiáveis são as posições éticas de seus contemporâneos?


[1] Debate entre Dave Hunt e Tommy Ice vs. Gary DeMar e Gary North. Citado por DeMar, The Debate Over Christian Reconstruction (Ft. Worth, Texas: Dominion Press, 1988), p. 185.

Gary North, "Rapture Fever: Why Dispensationalism is Paralyzed?". Cap. 5, pág. 91-92.

Traduzido por Chico Neto.

terça-feira, 21 de março de 2017

A NATUREZA DA AMÉRICA

A NATUREZA AMERICANA

A imagem que o resto do mundo tem dos Estados Unidos, amigos, é falsa. Aquele país, a despeito da confusão do séc. XX, ainda é um país cristão em grande medida. Esse cristianismo, contudo, não é refletido na política, na mídia ou no cinema. Essas três áreas são dominadas por humanistas e estes tendem a seguir uma agenda própria, no intuito de transfigurar o verdadeiro caráter do americano médio. Para Erik von Kuehnelt-Leddihn, o americano talvez nunca tenha sido um homem moderno no sentido completo. Os Pais Peregrinos, segundo alguns intelectuais, inclusive Rushdoony, fugiam não apenas de uma igreja onde não se sentiam livres, mas também da modernidade e do Iluminismo. A grandeza daquela nação está enraizada especialmente em Calvino. Tocqueville notou que a grandeza americana não estava em outro lugar além da vitalidade das igrejas.

"Eu procurava pela grandeza e pelo gênio da América em seus amplos portos e rios majestosos, – e não estava lá… na fertilidade de seus campos agrícolas e nas suas florestas ilimitadas – e não estava lá… nas suas ricas minas e no seu vasto comércio mundial – e não estava lá… no seu Congresso democrático e na sua constituição sem par, e não estava lá. Foi só quando visitei as igrejas da América, e ouvi seus púlpitos clamando exaltadamente por justiça e retidão que eu entendi o segredo do gênio e poder deste país. A América é grande porque ela é boa. Se ela cessar de ser boa, cessará de ser grande."

Kuehnelt-Leddihn escreveu:



"Se nós chamarmos os estadistas do fim do século dezoito de Founding Fathers of The United States, então os Peregrinos e Puritanos são os avôs e Calvino é o bizavô. Dizendo isso, ninguém precisa excluir a Virginia, porque o Anglicanismo tem fundações essencialmente Calvinistas ainda reconhecíveis em seus Trinta e Nove Artigos, e os Pais Peregrinos, como os Puritanos em geral, representavam um tipo de Anglicanismo re-reformado. Embora a moda Deísta oitocentista possa ter penetrado em alguns círculos intelectuais, o espírito predominante dos americanos antes e depois da Guerra de Independência era essencialmente calvinista em ambos os aspectos brilhantes e feios. Eles eram um povo trabalhador, sóbrio, sincero, intensivamente nacionalista, conscientes e orgulhosos de seus padrões morais, que incluíam a "ética protestante do trabalho". Como uma nação de tais virtudes eles despertaram a admiração do mundo e em sua própria auto-estima foram convencidos de que sua nação tinha uma missão messiânica de salvar o mundo através de uma 'novus ordo seclorum'."
Para o austríaco, mesmo o desprezo pela religião que a América tem vivenciado no séc. XX não conseguiu apagar a marca do reformador de Genebra.
"Ainda que o recuo de Calvino nunca tenha sido completo, não é assim nem mesmo hoje. Sua influência continua a mover-se como uma corrente sombria e subterrânea através do subconsciente americano. A presença do Maistre Jehan da teocracia genebrina pode ser sentida ao longo de toda grande literatura americana e em menor grau através de outras expressões artísticas americanas. Os americanos não podem afastar-se completamente da noção de que o homem é uma criatura depravada totalmente aleijada pelo Pecado Original e que a Graça de Deus sozinha pode salvá-lo. Por baixo de toda a atividade frenética, da busca sem descanso por prazer, uma certa melancolia permeia a vida americana e encontra expressão em uma música folk que é profundamente Calvinista, expressando a seu próprio modo o que Jacques Chardonne, um Católico, chamou de 'les terribles vérités chréstiennes'."

Hollywood não tem interesse em retratar a verdadeira América; antes, eles querem transformá-la. "Hollywoood vende 'Californication'", cantou Anthony Kiedis, vocalista do Red Hot Chili Peppers. Entre historiadores há uma tentativa clara de apagar a influência cristã da história daquele país. É por causa do cinema e da vida das celebridades ou por causa das opiniões progressistas de seus maiores jornais que mesmo nós, cristãos brasileiros, comumente caímos no antiamericanismo sem entender a complexidade das mudanças que aquele país enfrentou no século passado, ainda que não recorramos ao antiamericanismo que a esquerda implantou nas escolas. A verdade é que aquela realidade que julgamos representar a cultura americana existe apenas em algumas regiões do país.

LAICISMO?


O "laicismo" americano originalmente não impedia que aquele país fosse essencialmente cristão. Não apenas nos costumes, mas nas próprias leis. A Primeira Emenda nada dizia sobre a separação entre igreja e estado; era na verdade um limite para o Congresso. Até várias gerações depois de sua ratificação, as sessões começavam com um culto solene. Os estados constituintes eram definitivamente cristãos. O cristianismo era requerido para cidadania e direito de voto (se não fosse cristão, sequer poderia servir como testemunha em um tribunal). Havia leis proibindo a blasfêmia, leis requerendo a fé na Trindade, etc. Acontecia mesmo de a Bíblia ser citada em um julgamento quando a lei civil não cobrisse o caso, como aconteceu em um caso de divórcio em New Hampshire em 1836. Um ateu podia ser preso em alguns lugares, como um homem preso por 60 dias em Boston (1820) por ter negado a ortodoxia em uma publicação de jornal.

É apenas no séc. XX que encontra-se uma luta multiculturalista e relativista, na qual a cultura é reduzida às artes cênicas e plásticas no intuito de negar a unidade americana em torno de uma cultura e religião comuns. Defende-se que a união americana é feita única e exclusivamente pela política, pelo voto, como se aquele país fosse na verdade um papel em branco em que qualquer cultura do mundo possa encaixar-se. Mas isso não é verdade. Mesmo os católicos romanos acabavam aderindo à cultura calvinista predominante. Para Erik von Kuehnelt-Leddihn, os católicos americanos e os católicos europeus seguiram caminhos bem diferentes; que aqueles, embora confessadamente tomistas, eram culturalmente calvinistas, a ponto de julgarem os imigrantes católicos irlandeses e italianos como pagãos diante da sobriedade cultural calvinista.

"Católicos americanos foram por um longo tempo, como foi mostrado em seus modos puritanos, uma pequena minoria influenciada pela cultura Protestante ao seu redor, sua sobriedade religiosa, seu clericalismo e legalismo e total aceitação da teologia Tomista. Eles eram ao mesmo tempo culturalmente Calvinistas e intelectualmente medievais e esta foi a ocasião de muitos desentendimentos entre eles e seus correligionários europeus continentais. Para muitos católicos americanos e irlandeses-americanos os imigrantes italianos pareciam mais pagãos do que Cristãos. Inclusive, como Everett Dean Martin assinalou, o espírito americano era - e em pequena medida ainda é - mais medieval do que moderno. D. H. Lawrence chegou muito perto da mesma conclusão. Martin achou que o americano não era um homem moderno porque ele perdeu as influências liberalizantes da Renascença; Lawrence sustentou que a influência da Renascença foi precisamente do que os Pais Peregrinos fugiram. Antes da Primeira Guerra Mundial a maior parte dos colégios e universidades, alguns bancos e uma boa quantidade de palácios milionários foram construídos no estilo Gótico e alguns arranha-céus tinham pináculos góticos. Até mesmo as chamadas letras góticas eram consideradas como possuindo um caráter sagrado e eram favorecidas por inscrições religiosas e no anúncio de objetos litúrgicos.. Mas talvez o contraste entre o Gótico americano e o Renascimento europeu talvez possa ser melhor compreendido pela comparação entre os rostos e figuras no famoso trabalho de retratos de Grant Wood com a "deusa batizada" de Nascimento de Venus, de Boticelli."

A religiosidade protestante foi o parâmetro que garantiu a unidade àquela nação. O puritano John Winthrop, em seu sermão "A Model of Christian Charity", descreveu a natureza o ideal de fundação daquela que viria a ser a América a partir da colônia da Nova Inglaterra:
"Eis que está posta a causa entre Deus e nós. Estabeleceremos uma aliança com Ele para esta obra. Assumimos uma comissão. O senhor nos permitiu redigir os próprios artigos. Professamos empreender estes e aqueles esclarecimentos, sobre estes e aqueles fins. Temos, depois disso, lhe suplicado graça e bênção. Agora, se for agradável ao Senhor nos ouvir, e trazer paz para o lugar que desejarmos, então terá ratificado esta aliança e selado nossa comissão, e esperará uma observância rigorosa dos artigos nela contidos. Se negligenciarmos, contudo, a observância desses artigos, que são os fins aos quais nos propusemos, e, usarmos de dissimulação para com o nosso Deus, ao abraçar o mundo presente e dar seguimento às intenções carnais, buscando grandes coisas para nós mesmos e para nossa posteridade, o Senhor certamente lançará sua fúria contra nós; vingar-se-á de tal povo [pecador] e nos dará a conhecer o preço da violação de tal aliança."


Que o Senhor possa reavivar a América e avivar o Brasil.

NOTA SOBRE MULTICULTURALISMO

NOTA SOBRE MULTICULTURALISMO

A força, a identidade e a unidade de um povo estão primeiro em sua religião-cultura e só depois em suas instituições.

"A restauração realizada por Diocleciano, então, por cruel que tenha sido, e a adoção do Cristianismo por Constantino, misteriosa que pareça, modificaram inteiramente o mundo. Tornaram possível SUBSTITUIR A UNIDADE POLÍTICA PELA UNIDADE RELIGIOSA CRISTÃ e deram aos Pais Cristãos uma oportunidade muito melhor de se apropriarem do conhecimento clássico (...) O importante é que [depois da Queda do Império Romano do Ocidente] a unidade não foi totalmente perdida, mas modificada, embora de forma significativa, e que a modificação ocorreu em toda parte num espaço de tempo relativamente curto. Como Bury observou, 'a atmosfera da época em que o Império Romano foi desmembrado era a da religião cristã'. Se isso não tivesse ocorrido, a Idade Média, e portanto o nosso mundo, não seriam concebíveis." [William Carroll Bark em "As Origens da Idade Média"].

Achar que é possível, viável ou, pior, justo, que o multiculturalismo seja aceito e incentivado pela igreja como sinal de piedade é seguir um falso Cristo, com uma falsa luz. A Escritura em momento algum iguala as culturas. Antes, Deus quer regenerá-las. O problema dos americanos, como posto pelo P. Andrew Sandlin em um artigo de seu blog, não é a imigração em si, mas a perda da capacidade de defender a própria cultura.

segunda-feira, 20 de março de 2017

KARDECISMO: INFERNO OU PURGATÓRIO?

KARDECISMO: INFERNO OU PURGATÓRIO?

Um dos pontos de discussão no debate entre cristãos e espíritas diz respeito aos juízos de Deus. A condenação ao inferno para o kardecista é inaceitável. Há alguns dias eu vi um deles dizer: "uma pessoa peca por 10 minutos e passa a eternidade no inferno? Que Deus misericordioso é esse?" O problema não é apenas o amontoado de falácias, mas a cosmovisão. 


Em primeiro lugar, quem conhece o padrão bíblico sabe que todo homem tem uma vida inteira de pecado e rebeldia; a rebeldia é sua atitude apriorística e mesmo suas boas obras são farisaicas, impuras de segundas e terceiras intenções. 

Em segundo lugar, a duração de um pecado nada diz respeito à gravidade do ato. Isso decorre da rejeição da doutrina cristã do Pecado Original. O kardecismo ressuscita a heresia pelagiana. 

Em terceiro lugar, o deus kardecista está mais próximo do deus dos gregos do que do Deus bíblico. O kardecista não compreende um Deus capaz de irar-se, de exigir punição. O deus kardecista, por demais humanista, é pura compaixão. Eles beiram a antinomia.

Em quarto lugar, o kardecismo defende uma visão do problema do homem influenciada pelos motivos religiosos básicos gregos, filtrados na modernidade - confusão que sem dúvidas retornou ao Ocidente com o Escolasticismo. Para seus adeptos, o problema do homem é sobretudo intelectual, racional, e moral como consequência disso. Na medida em que o homem "evolui", ele cresce em racionalidade e tornar-se-á naturalmente bom e perfeito (alcançando até mesmo o status de Cristo em encarnações futuras). A Bíblia porém, diz que Deus deu ao homem uma lei escrita no coração e que o homem rejeita-a deliberadamente, ocasionalmente inventando para si falsos padrões morais a fim de sentir-se livre de certas obrigações. O problema do homem, do ponto de vista cristão, é moral, não racional.  

Em quinto lugar, pressupondo a evolução, ele não acredita na punição eterna como execução da justiça. Para ele, o que entende-se como "justiça" é instrumento regenerador e educador. Assim sendo, o inferno é substituído por estadias em "umbrais" (lugares espirituais de sofrimento) e pelo karma, a ser expiado nas próximas encarnações. A Escritura, porém, discerne disciplina e justiça. Cristo disciplina aqueles que Ele ama. Aqueles que rejeitam-no, porém, serão condenados. Não coincidentemente, os kardecistas apoiam-se na doutrina romanista do purgatório como uma evidência da historicidade de sua crença. Esse problema gira em torno do absoluto desprezo deles pela natureza do Evangelho, substituído por seu pseudo-evangelho pelagiano. O homem deve salvar-se a si mesmo pela "evolução espiritual" e pelas boas obras, sem a qual, como diz seu lema, "não há salvação". Assim, o kardecista acredita na necessidade do fardo insuportável de reencarnar milhares de vezes antes de finalmente obter descanso glorioso - por méritos próprios. O kardecismo mescla o evolucionismo darwinista e a evolução espiritual na intenção de "naturalizar o sobrenatural", o que talvez tenha sido uma tentativa de Allan Kardec para tornar a religião e o espírito aceitável para a mentalidade positivista e folclórica que os homens do séc. XIX criaram em torno da onipotência da ciência.

A partir desse ponto podemos perceber que kardecistas e cristãos têm diferentes visões do que cremos em Deus ser justiça e compaixão. Para o kardecista, Deus não é justo se condenar eternamente, mas se obrigar o homem a encarnar milhares de vezes e pagar cada pecado, cada palavra dita erroneamente, cada pensamento fora do lugar, cada escolha equivocada, milhares e milhares de vezes. Isso é o que eles acreditam ser a misericórdia divina. Para nós, entretanto, Deus é misericordioso por perdoar verdadeiramente os pecados daqueles que recebem o sacrifício de seu Filho na cruz. Ora, o cristão é justificado diante de Deus e feito justo através da justiça de Cristo. Esse é o Evangelho pregado por Paulo, no qual somos salvos pela fé, não pelas obras [Ef 2:9]. Deus foi misericordioso porque veio ao mundo morrer para pagar pela punição por nós merecida e que verdadeiramente nos perdoou e nos requereu pra si por toda eternidade. O Deus cristão, portanto, é verdadeiramente misericordioso e amoroso, muito mais do que o deus kardecista, que exige a expiação estrita de cada indivíduo. Deus expiou em si mesmo o nosso pecado; o deus kardecista não expia os erros de ninguém, nem salva ninguém. É o próprio indivíduo que salva-se a si mesmo. Cristo não é um salvador para o espiritismo, mas apenas um exemplo moral, um professor. Essa visão de Cristo, inclusive, não é nada além daquela do liberalismo teológico e ela não é acidental, pois Allan Kardec foi discípulo de Johan Pestalozzi, um suíço adepto da teologia liberal, de quem aprendeu tais heterodoxias.

Para alguns kardecistas, o Evangelho genuíno é inaceitável, porque Deus perdoa quem não merece perdão. Paulo disse que o Evangelho é "loucura para os gregos" [1 Cor 1:23]. Eles não entendem que é exatamente por isso que Deus é misericordioso e gracioso para conosco. O kardecista desconhece completamente o conceito de Graça Divina. O kardecista tem muitas opções para povoar a imaginação com suposta historicidade de suas crenças, porque quase todas as religiões seguem a mesma linha de raciocínio quando o assunto é justificação pelas obras; o cristianismo é a  religião mais singular do mundo - e por isso a única verdadeira. Nós podemos dizer que Cristo é nosso Salvador; eles não. Eles precisam torcer os termos bíblicos para que se adequem forçosamente em sua própria cosmovisão. Para o kardecismo, o Evangelho é loucura. Mal sabem eles que é exatamente assim que os réprobos vêem as boas novas pregadas por aquele homem de Nazaré.

Em sexto e último lugar, os conceitos modernos e vagos de amor e compaixão conduzem o kardecista a outra heresia, o universalismo. Os kardecistas acreditam que Deus não pode ser verdadeiramente compassivo caso uma única alma não seja salva. Essa talvez seja uma das questões mais difíceis pra eles em um primeiro momento. Eles não sabem que Paulo discute essa questão em sua Carta aos Romanos. Eles preferem negar as palavras do próprio Cristo e de seus discípulos e, julgando-se mais sábios que os apóstolos, creem entender melhor a mensagem de Cristo do que os oráculos eleitos pelo próprio Cristo. Allan Kardec, nascido 1.800 anos depois de Cristo, com conhecimento questionável das línguas originais, nunca tendo visto Cristo pessoalmente e com a mente infectada de positivismo, julgava-se mais sábio do que os apóstolos? 

Os seguidores de Kardec manifestam assim quase a mesma revolta metafísica típica da espiritualidade moderna. Ele levanta-se contra a ortodoxia cristã. Julgando-se mais racional do que o cristianismo - ironicamente desprezando  cerca de 2.000 anos de tradição filosófica cristã-, eles rejeitam "dogmas", como se sua visão não fosse dogmática. As palavras de Cristo e Paulo não são suficientes. A "Palavra de Deus" não é autoridade; sua "razão" é. Não entendem o que é a Razão divina, não fazem ideia do que é uma discussão epistemológica, das críticas ao conhecimento científico ou das exigências de uma hermenêutica bíblica. Sua hermenêutica é basicamente liberal, sem fundamento histórico - mas eles provavelmente não sabem disso. Deus não faz nenhuma injustiça: Ele é Amor, mas também é Justiça. Ao salvar os pecadores pela fé, Ele age graciosamente; ao condenar os que não recebem o sacrifício de seu Filho, Ele age com justiça, de forma que ninguém recebe o que é injusto. O homem peca por escolha, não por falta de evolução. Ora, é mais misericordioso o deus da evolução espiritual que cria deliberadamente os seres ignorantes para que errem presumivelmente e devorem-se uns aos outros, matem-se uns aos outros, por incontáveis encarnações, nascendo, adoecendo, sofrendo, morrendo, vendo a injustiça contra os próximos centenas de milhares de vezes?

Tais confusões têm arrastado milhões para o engodo e para heresias que o cristianismo combateu no passado. Como diz a Escritura, "não há nada novo debaixo do sol". [Eclesiastes 1:9]

*** Por Antonio Vitor.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

POP ART E NIILISMO



A Pop Art nasceu de um impulso fortemente niilista, uma negação dos valores e do sentido. Nas palavras de Hans Rookmaaker [em A Arte Moderna e a Morte de uma Cultura], ela pareceu encarnar "um misto de humor e raiva, de sorrisos e lágrimas, de aceitação condescendente e rejeição irada, de amor e ódio, de vida e morte." "Infelizmente", diz Rookmaaker, "o nosso século ensinou às pessoas a verem o absurdo em todas as coisas, o caráter comercial, a barateza do cromo brilhante, o vazio e a superficialidade. (...) a degradação de muitas coisas que não eram necessariamente sagradas, mas estimadas e valorizadas de forma emocional."

Andy Warhol, um de seus criadores, fazia "arte" com a sacralização daquilo que é banal e banalização daquilo que é sagrado. A repetição nauseante da famosa lata Campbell's, um de seus ícones, atingiu a escala comercial, diferenciando-se um pouco do elitismo de outros artistas modernos, que consideram-se iluminados acima da multidão.



A comercialização da imagem de Che Guevara estampada em tantas camisas foi um de seus legados.


O pop é o banal, o vulgar, a sátira contra os valores. Na pós-modernidade, verdades não existem mais. Não há, pois, realidade, valores, nem sagrado.

Quando os Engenheiros do Havaí cantaram que "o papa é pop" (uma música deveras niilista), eles estavam lamentando a banalização até mesmo de uma tentativa de assassinato, mesmo que não encontrassem alternativa para a falta de sentido.

Eis a crise do homem sem Deus.

NOTAS SOBRE ARTE MODERNA


Notas sobre Arte Moderna.
"O desejo do homem apóstata, como Jean-Paul Sartre percebeu em Saint Genet, é pelo mal absoluto, uma total pureza no mal e uma pureza no ódio a Deus. Os artistas em particular têm perseguido esse objetivo de profanação, blasfêmia e mal com intensidade. Richard N. Col afirmou que "questionar os valores é o direito de nascença do artista." Isso significa que o artista, como um profeta Sadeano, planeja criar um novo e radical mundo sem significado, em efeito, fazer um inferno na terra." ~ Rushdoony

*** O establishment artístico é, sim, uma comunidade elitista, que pouco se importa com as opiniões dos "não-iluminados" e que é defendido pela esquerda por ser um ataque contra a objetividade. Entretanto, eu tenho medo de certo reducionismo que pode ser interpretado a partir do vídeo. Não dá pra dizer que aquela seja TODA "A verdade sobre a arte moderna", embora seja boa parte dela. Do meu ponto de vista, não é possível entender a arte moderna fora de seu escopo filosófico - e ele vem desde Kant.

*** Quando Eva descreu em Deus e creu na serpente, ela rejeitou seu auto-conhecimento, sua realidade enquanto criatura, em favor de um objeto mental criado pela imaginação, um ídolo de si mesma: "ser como Deus." O homem moderno, semelhantemente, rejeita a realidade sobre si quando nega ser um pecador. Ao rejeitar a doutrina da depravação total, o humanista começa a viver em desarmonia com o mundo, porque ele não reconhece sua própria condição. Ele vive uma ilusão. Como consequência, ele precisa encontrar a causa de seu sofrimento fora de si, no mundo criado. A culpa do mal está supostamente nas instituições: no estado, na igreja, na família, nas placas homofóbicas dos banheiros, etc. Sua atitude, portanto, será "refazer" o mundo com a revolução, fugir do mundo criado para a utopia, que, em si, também é meramente uma construção mental. E, por não ver a realidade como ela é, essa revolução sempre terminou em caos e destruição. A despeito dos resultados negativos, a ilusão persiste. "Utopia, ainda que você morra por ela".

A Revolução é, portanto, uma atitude escapista. Os revolucionários querem escapar da realidade em favor do "fim da história" ou de um reino absoluto de justiça e igualdade, como em Marx, fechando os olhos para as diferenças evidentes do mundo real. O existencialismo e a ideologia de gênero são outras das expressões desse escapismo da realidade. Como Eva, Sartre estava consciente do desejo que o homem tem de "ser como Deus". Negar a própria natureza a favor de um objeto mental é a atitude do ocidental moderno. A despeito de nascer como menina, você pode ser menino. A despeito de ser um homem com filhos, um indivíduo nos EUA deseja ser uma menina de 6 anos de idade.

Nas artes, esse escapismo também é refletido. Marcel Duchamp, por exemplo, ícone do dadaísmo, fez uma pintura chamada "Mulher Nua Descendo as Escadas". A despeito do nome, a pintura é um arranjo grosseiro de rabiscos ininteligível. A arte abstrata nasceu como uma resposta profundamente espiritual contra o "racionalismo". O cubismo, por sua vez, também rejeitou a realidade. Na arquitetura, a beleza foi sobrepujada pela ousadia, pela emoção e pela quebra de paradigmas. É na arte que o homem moderno satisfaz seu ímpeto criador de forma quase ilimitada.

"Nu descendo a escada", Duchamp. 1912.


Os movimentos estudantis de esquerda são reconhecidos por alguns como uma rebeldia contra a maturidade, um desejo de "retornar ao útero materno", escapar das responsabilidades da vida adulta. Os hippies buscavam experiências místicas em sua busca pela natureza. As drogas eram vistas como sacramentos religiosos pelos quais se "transcendia" das amarras psicológicas ocidentais, como definidas por Marcuse. Sem Deus, o homem foge da realidade, porque ela só faz sentido com Ele.


*** A arte moderna tem como pano de fundo uma filosofia estética própria, adotada na forma de "expressão livre" do artista autônomo. Esse artista é, acima de tudo, o criador de uma nova realidade, um profeta das "verdades" de um universo caótico, desprovido de qualquer ordem ou sentido. É por isso, também, que ela é um escape da realidade, um ataque contra ela. É um impulso à ficção, que está presente em todas as áreas na modernidade. Se não existe essência, então você pode, como Duchamp, dizer que um aparsanitário é uma "fonte" [ver imagem a seguir; "A Fonte", 1915] e ficar rico expondo isso como se fosse um insight genial. Ou você pode fazer as chamadas "intervenções" artísticas grotescas tão comuns nos centros de Ciências Humanas das universidades de todo o Ocidente. Semelhantemente, a visão ilusória que muitos esquerdistas alimentam do socialismo também evidencia esse tipo de impulso, no momento em que defendem que o socialismo "genuíno" é aquele que eles imaginam na própria cabeça, a despeito do socialismo real, fracassado, totalitário e genocida.


OS PROFETAS DO CAOS



René Girard, em "Aquele Por Quem Vem o Escândalo", nota que a autocrítica é um fenômeno tipicamente ocidental, inexistente em outras culturas. Um insight muito perspicaz, sem dúvidas. Embora possamos rastrear algo desse criticismo na Grécia Antiga, o trabalho de crítica social é próprio da função profética da nação do Pacto na religião cristã. Deus levantava profetas para, baseados em sua Lei, exortar a nação para o arrependimento. E na história da Igreja, esse profetismo manteve-se vivo.

Com a secularização e a perda do conteúdo *explicitamente* religioso, a função profética da igreja sofreu grave abalo na vida pública. Os artistas, afinal, assumiram essa função pra si. Como Rushdoony afirma, com José Guilherme Merquior e Hans Rookmaaker, a arte moderna reclamou pra si a função profética de "crítica da civilização". Baseados, não na Lei de Deus, mas na rejeição cartesiana da objetividade do mundo exterior, os artistas transformaram-se em profetas pagãos do caos, da negação da vida prática e suas leis. Sua pregação é contra as necessidades do mundo material, contra a moralidade e contra qualquer coisa além da própria existência. A arte moderna rejeita "o caráter repressivo da realidade" em favor de uma "mística de liberdade espiritual". Embora prescinda dos valores religiosos cristãos, o artista é essencialmente religioso, em outro sentido.

Como Henry Van Til dissera (e citá-lo já virou quase um clichê), cultura é "religião externalizada". O artista coloca-se acima do mundo e da sociedade, donde todo o seu desdém, sua boemia e seu ódio do mundo real e do trabalho é usado como credencial de sua autoridade espiritual e hermética, acima da opinião comum, como se fossem uma elite de "super-homens" nietzschianos, que coloca-se acima do bem e do mal para pregar, através da arte, o caos próprio das religiões pagãs de fertilidade, e revelar ao homem contemporâneo a absurdidade existencial. Sua postura é sempre a de ruptura e destruição da ordem vigente, e é inescapável que sejam compreendidos como subversivos e arautos da desordem. Trata-se de um fenômeno sempre direcionado para o abismo.

Albert Camus acusou publicamente os filósofos de praticarem o assassinato premeditado sob a chancela da liberdade filosófica. Os artistas, semelhantemente, requerem uma espécie de "foro privilegiado" para sua atitude dissimuladamente religiosa, pagã e neoplatônica, seu ódio do mundo e da classe média, sob a chancela de liberdade artística. Permitem-se, assim, o direito de ofender a sociedade - especialmente a religião - e, quando contrariados, apelam para sua "liberdade de expressão", veementemente negada a quem quer que esboce qualquer julgamento moral. A arte, dizem, é livre do bem ou mal. O único mal é a moral, principalmente a moral sobrenatural cristã, que nega o primitivismo dos impulsos reprimidos do id freudiano.

Há alguns anos, durante um evento cultural na cidade de Oeiras, no sul do Piauí, um artista estrangeiro convidado e financiado pelo governo do estado enfiou uma bandeira do nosso estado no ânus e dançou nu diante da plateia. Isso é arte. E quem não aceita é alienado. Tal retórica canalha é paradoxalmente defendida ao mesmo tempo em que boa parte dos defensores da tradição moderna não percebe a incoerência entre seus clamores por igualdade democrática e o elitismo espiritual do meio artístico moderno em si. O pior é que nossa classe política, algumas vezes até impulsionadas pela boa intenção de incentivar a arte que definitivamente não entende, é completamente despreparada para lidar com o dilema e acabamos, como que por tragédia, sendo obrigados a financiar aqueles que nos ofendem através dos impostos que pagamos.

A arte é essencialmente uma manifestação religiosa e os conflitos que hoje vemos são o sinal da grande crise ocidental denunciada por Spengler e Toynbee.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017


A DISCUSSÃO SOBRE REFORMA, CALVINO E ECONOMIA
por Antonio Vitor.


A influência da Reforma Protestante no desenvolvimento do capitalismo é alvo de não pequena controvérsia no mundo acadêmico. Ela tem servido especialmente para enfatizar o papel da religião nas relações econômicas. O debate tende a buscar respostas na polarização entre a história dos países influenciados pela Reforma, mais ao norte da Europa, e a história dos países católicos romanos, mais próximos do mediterrâneo, razão pela qual também é grande a tentação de reduzir o debate a uma briga de torcidas, quando os interessados são influenciados pelo denominacionalismo estrito. A controvérsia por vezes toma a forma de uma rivalidade mimética, pela qual pressupõe-se que a verdadeira religião cristã é aquela mais afinada às verdades econômicas – um parâmetro que não deixa de ter alguma relevância, visto que o cristianismo, ao contrário de outras religiões, é também uma religião histórica preocupada com uma cosmovisão coerente com a realidade concreta.

É comum que o debate seja resumido a lugares-comuns. Não se pode dizer que “o protestantismo criou o capitalismo”; isto seria uma caricatura de um problema complexo, com um número maior de fatores impossíveis de serem reproduzidos em laboratório e que na verdade começou a mostrar-se um pouco antes da Reforma em si. A tese de Max Weber hoje divide lugar com várias outras, como as de Richard Easterlin e R.H. Tawney, de forma que não apenas a “ética protestante” do trabalho é um fator determinante para o desenvolvimento do capitalismo entre os países protestantes, em contraste com o crescimento menor de países católicos romanos. Fatores como educação-tecnologia, secularização, posição estratégica no período colonial e organização política são também importantes.

Dentre esses, primeiro, o incentivo à educação-tecnologia também pode ser mais corretamente relacionado à Reforma que sempre impulsionou a educação das massas com o propósito de torná-las aptas para um contato direto com as Escrituras, inclusive com o desenvolvimento de uma educação pública. Alguns teóricos com tendências marxistas talvez queiram enxergar isso como uma desculpa religiosa para mascarar o puro interesse de criação de uma classe mais tecnicamente preparada para o trabalho, mas isso provavelmente não seria nada além de uma manifestação de sua maledicência e seu espírito antagonista à religião per se. O fato é que no século XIX os países protestantes possuíam níveis proporcionalmente maiores de educação primária. Embora os secularistas tenham se apropriado desse legado da Reforma, moldando-o à sua própria educação humanista, o impulso inicial foi certamente religioso. A urgência entre a necessidade de ensino bíblico na consciência dos protestantes em contraste com doutrinas como a da Fé Implícita, segundo a qual os leigos não necessitam de um conhecimento objetivo e crescente das doutrinas e da Escritura, confiando antes esse papel somente à Igreja, certamente fez a diferença. Efeitos secundários da Reforma, como o papel de John Wesley e do metodismo, que, segundo historiadores, por causa de seu conservadorismo no que concerne à autoridade e seu trabalho educacional, impossibilitou uma versão inglesa da Revolução Francesa, e, embora com diferenças, o papel do pentecostalismo na América Latina, podem servir como parâmetro para compreensão daquele fenômeno.

Em segundo lugar, paralelamente, o papel do secularismo também merece atenção. Antes da Reforma, como veremos a seguir, o cristianismo serviu como um freio à acumulação de capital. Desde o século XVIII, os países protestantes começaram a sofrer um processo crescente de secularização, relativamente mais lento nos países católicos pós-Contrarreforma, o que significou uma libertação do comércio de suas antigas amarras morais. Os países católicos romanos, a partir do século XIX, e mais especialmente no século XX, têm presenciado um crescimento econômico paralelo ao dos países protestantes também em virtude de seu grau de secularização.

Em terceiro lugar, deve-se levar em consideração a posição estratégica de países protestantes e católicos, que beneficiaram-se da colonização, mas que produziram efeitos econômicos distintos entre a própria população. Embora Portugal e Espanha tenham sido potências pioneiras, sua colonização não produziu uma classe mercantil forte a ponto de exigir mudanças, o que aconteceu em países protestantes como a Inglaterra e a Holanda. Essas potências navais puderam produzir efeitos distintos dentro de seus territórios. Isso leva-nos, em quarto lugar, a reconhecer as diferenças de arranjos políticos desenvolvidos. Nesse caso, também, as diferenças teológicas vêm à tona. Os países influenciados pelo calvinismo, por causa de sua doutrina de resistência civil através de magistrados menores, tenderam a desenvolver teorias políticas descentralizadoras e, no caso específico da Holanda, mais tolerantes. Em contraste, os países católicos tenderam à centralização. Um fator a ser estudado nesse contexto é a participação da Contrarreforma nesse processo, com a reafirmação das hostilidades medievais ao livre mercado e a defesa de rigor e controle nas relações econômicas. A Contrarreforma talvez explique a razão pela qual a Itália, por exemplo, perdeu a corrida do avanço econômico já que, antes da Reforma, em virtude do rebento secularista da Renascença, ela chegara a ser o centro da riqueza da Europa. Muitos comerciantes da orbis catholicus, de espírito erasmiano (i.e., humanista) foram para países protestantes em busca de condições menos hostis.

Se todos esses fatores tornam a situação mais complexa, mais ainda é quando se tenta ser mais específico do que a categoria “protestantismo” permite. E mais ainda quando se busca a influência inequívoca de um único teólogo, Calvino.

De certo, como asserta Murray Rothbard, economista da Escola Austríaca, Lutero e Calvino têm basicamente as mesmas opiniões, exceto em duas questões: o conceito de “vocação” e a interpretação da lei da usura. O economista ressalta que o conceito de vocação foi mais desenvolvido entre seus herdeiros puritanos, razão pela qual a contribuição mais marcante da pessoa de Calvino, especificamente, está em sua interpretação da lei da usura. Ela torna-se mais compreensível quando confrontada com as interpretações de seus predecessores.

Primeiro vejamos algumas passagens levantadas pelos teólogos na história da igreja no concernente à usura. Em Levítico 25:35-38, temos:


E, quando teu irmão empobrecer, e as suas forças decaírem, então sustentá-lo-ás, como estrangeiro e peregrino viverá contigo. Não tomarás dele juros, nem ganho; mas do teu Deus terás temor, para que teu irmão viva contigo. Não lhe darás teu dinheiro com usura, nem darás do teu alimento por interesse. Eu sou o Senhor vosso Deus, que vos tirei da terra do Egito, para vos dar a terra de Canaã, para ser vosso Deus. 

Em Deuteronômio 23:19-20 (um sumário de Deuteronômio 15:1-11):

A teu irmão não emprestarás com juros, nem dinheiro, nem comida, nem qualquer coisa que se empreste com juros. Ao estranho emprestarás com juros, porém a teu irmão não emprestarás com juros; para que o Senhor teu Deus te abençoe em tudo que puseres a tua mão, na terra a qual vais a possuir. 


E em Êxodo 22:25:

Se emprestares dinheiro ao meu povo, ao pobre que está contigo, não te haverás com ele como um usurário; não lhe imporeis usura. 

Desde, infelizmente, os Pais da Igreja, essas passagens têm sido terrivelmente mal interpretadas. Já no Primeiro Concílio de Nicéia, vê-se a questão da usura sendo mencionada e aplicada para os leigos nos concílios seguintes. Desde Platão e Aristóteles, mas também em romanos como Cícero, Plutarco e outros, a tradição desenvolvida enxerga o interesse econômico como mal em si mesmo, e que o usurário e o banqueiro são os piores inimigos da civilização, condenados até como conspiradores – embora os gregos antes deles praticassem empréstimos a juros. Os conceitos de virtude e vício dos filósofos e pagãos influenciaram a igreja e fizeram da crítica à usura o conselho dominante até os dias de Calvino, especialmente populares na Idade Média. Para Aristóteles, o dinheiro era um bem improdutivo. Tomás de Aquino, seguindo-o, condenou qualquer prática de juros como se fosse uma venda repetida do mesmo objeto. Para ele, “Receber usura pelo dinheiro mutuado é, em si mesmo, injusto, porque se vende o que não se tem; donde nasce manifestamente uma desigualdade contrária à justiça.” [1] Lutero também manteve opinião desfavorável aos juros.

As consequências disso são evidentes até os nossos dias. Os banqueiros são vistos como conspiradores, até mesmo por conservadores. Na época, os cristãos eram proibidos de fazer empréstimos uns aos outros. Os judeus, por isso, tornaram-se a fonte de empréstimos para cristãos.

A grande mudança veio primeiro com Calvino. Rothbard admite que:


“Calvino começou com uma ampla defesa teórica da tomada de interesse e então cercou-a de qualificações; os liberais escolásticos começaram com uma proibição da usura e então qualificaram-na. Mas enquanto na prática os dois grupos convergiram e os escolásticos, descobrindo e elaborando o banimento da usura sobre exceções, foram teoricamente mais sofisticados e frutíferos, a quebra formal do banimento promovido por Calvino foi um avanço no pensamento e na prática ocidentais.” [2]

Para Calvino, a condenação do interesse pelos filósofos e romanos não tinha respaldo bíblico. A passagens que falavam sobre a usura de nenhuma forma eram uma condenação da usura em si, mas, antes, uma lei que visava garantir a caridade ao irmão necessitado. Em seu comentário de Êxodo 22:25, Calvino escreveu:


“A questão aqui não é sobre a usura, como muitos têm falsamente pensado, como se Ele nos comandasse a emprestar gratuitamente, e sem qualquer expectativa de ganho; mas, no ato do empréstimo, a vantagem privada é geralmente buscada, e portanto nós negligenciamos o pobre; e emprestamos nosso dinheiro apenas ao rico, de quem esperamos alguma compensação. Cristo lembra-nos que, se nós buscamos adquirir o favor do rico, nós não atestamos qualquer prova de caridade ou misericórdia; e daí reside a proposta de outro tipo de liberalidade, que é simplesmente gratuita, na assistência ao pobre, não apenas porque nosso empréstimo é arriscado, mas porque eles não podem dar um retorno em espécie.” [3]

É preciso ressaltar que essa lei atravanca em muito o banimento da usura. Não é um banimento total, mas apenas para o “irmão pobre”. Não é sequer todo e qualquer irmão, mas apenas o necessitado. Outro erro de Aquino nessa questão é não perceber essa limitação e estender a irmandade cristã e pactual para todos os homens. Ele disse que “Aos judeus foi proibido receber usura dos seus irmãos, isto é, dos Judeus. Por onde se dá a entender que receber usura de quem quer que seja é sempre mau; pois, devemos considerar a todos os homens como próximos e irmãos.” [4] Nem o recebimento de usura foi proibido a todos os irmãos, nem muito menos consideramos todos os homens como irmãos.

Um outro argumento defendido por Calvino é a nossa situação civil diferenciada em relação ao povo do Antigo Testamento. Agora, as nossas leis devem basear-se na equidade, não fazendo sentido, portanto, desde que a usura em si não é má, sustentar tal proibição. 

Rothbard aponta corretamente uma inconsistência de Calvino, pois, ao mesmo tempo em que o reformador dizia que todas as profissões glorificavam a Deus, criticou quem trabalhasse profissionalmente com usura. A despeito disso, Calvino continuou condenando os exageros nas taxas e seu padrão ficou internacionalmente conhecido como o “contrato alemão”.

Em comparação com tudo isso, mesmo a contragosto de empreendedores do orbis catholicus, o parecer da Igreja de Roma continuou negativo a respeito da usura por algum tempo. Apenas em 1745 o papa Bento XIV começou a rever o posicionamento da igreja na encíclica Vix Pervenit. Sua doutrina, porém, de base tomista, continuou se desenvolvendo no caminho da intervenção estatal e do distributismo. No séc. XIX, teólogos neotomistas desenvolveram um conceito de “justiça social” [sim, esse conceito nasceu entre católicos romanos] que espalhou-se pelo mundo pelas encíclicas ligadas à Doutrina Social. João XXIII, em “Mãe e Mestra”, na sessão “Iniciativa pessoal e intervenção dos poderes públicos em matéria econômica”, escreveu:


“Mas nele, pelas razões já aduzidas pelos nossos predecessores, devem intervir também os poderes públicos com o fim de promoverem devidamente o acréscimo de produção para o progresso social e em beneficio de todos os cidadãos.” [5]

Na Encíclica Quadragesimo Ano (Comemorando o 40º aniversário da Rerum Novarum), Pio XI descreveu ainda com certo orgulho que a Doutrina Social da Igreja de Roma tenha se espalhado inclusive em países protestantes:
“Não é pois de admirar, que muitos sábios quer eclesiásticos quer leigos se aplicassem diligentemente, seguindo a orientação dada pela Igreja, a desenvolver a ciência social e econômica, conforme às exigências do nosso tempo, levados sobretudo do desejo de tornar a doutrina inalterada e inalterável da Igreja mais eficaz para remediar as necessidades modernas. Foi assim que à luz e sob o impulso da encíclica de Leão XIII nasceu uma verdadeira ciência social católica, cultivada e enriquecida continuamente pela indefessa aplicação d'aqueles varões escolhidos, que chamamos ‘cooperadores da Igreja’. (…) A doutrina ensinada na encíclica  “Rerum novarum”  impôs-se insensivelmente à atenção d'aqueles mesmos que, separados da unidade católica, não reconhecem a autoridade da Igreja ; e assim os princípios de sociologia católica entraram pouco a pouco no património de toda a sociedade humana; e as verdades eternas, tão altamente proclamadas pela santa memória do Nosso Predecessor, vemo-las frequentemente citadas e defendidas não só em jornais e livros mesmo católicos, mas até nos parlamentos e tribunais.” [6]


Cem anos depois de Calvino, o teólogo holandês Claude Saumaise quis corrigir ainda alguns erros restantes sobre a usura, chegando ao ponto de permitir a usura a pobres. Segundo ele, quanto mais pessoas pedindo empréstimos, mais a concorrência faria com que as taxas de juros caíssem e se tornassem mais acessíveis. É uma solução pragmática. Entretanto, talvez alguma discussão seja necessária sobre isso. De acordo com o teólogo Rousas J. Rushdoony, a lei que proíbe a usura para irmãos pobres tem um objetivo comunitário muito importante: ela garante a existência da caridade e impede que a comunidade perca seu senso de unidade para o mais brutal individualismo. Rushdoony argumenta que Deus não criou essa lei arbitrariamente, razão pela qual não podemos supor que nossa lógica econômica seja superior à intenção de Deus ao promulgá-la. Para Rousas, de igual modo, as leis que protegem a caridade são mais direcionadas às pessoas próximas de cada indivíduo, principalmente os empregados mais pobres, exatamente por esse motivo.

Semelhantemente, não devemos enxergar em Calvino um grande “capitalista”. Apesar de suas defesas nesse ponto, Calvino ainda tinha uma opinião hostil aos homens de negócios, que, em sua visão, esperam catástrofes a fim de aumentar os preços de seus produtos. De certo, alguns de seus conselhos hoje seria reprovados por uma visão econômica liberal mais salutar. Em Genebra, sabe-se que o preço do pão foi regulado por um período. Ele também defendeu a saúde pública. Lutero também, em geral, apoiou o controle estatal de preços. O efeito prático, contudo, da correção da interpretação da lei da usura por parte de Calvino, segundo Rothbard, foi que ela “transferiu a responsabilidade da aplicação de ensinamentos sobre a usura da igreja ou do estado para a consciência individual”. Não apenas a lei da usura promoveu isso, mas o desenvolvimento das teorias políticas dos calvinistas culminou, gradualmente, para a legitimação de contratos livres; a doutrina pactualista (ou aliancista) é emblemática nesse sentido. A teologia calvinista desenvolveu-se cada vez mais rumo à liberdade de contrato e os puritanos, através de experiência e revisão teológica, cada vez mais buscaram bases bíblicas para a liberdade econômica [7].

Quando fala-se da importância do aristotelismo ou do tomismo para o desenvolvimento da ciência econômica, isso não significa que tudo o que Aristóteles ou Tomás de Aquino escreveram sobre o assunto está correto. Semelhantemente, podemos falar da importância do calvinismo sem com isso defendermos que esse sistema tenha acertado em tudo. Calvino nunca escreveu qualquer tratado sobre economia. Seu dom ímpar de interpretação, contudo, permitiu que ele produzisse um grande impacto com apenas poucos parágrafos sobre a usura. Fica evidente que o protestantismo forneceu alguns elementos que, embora não tenham sido suficientes para a criação do capitalismo, foram cruciais para a criação de um ambiente no qual, aliado a outros fatores, ele se desenvolvesse. Talvez a Contrarreforma tenha atrapalhado um pouco o desenvolvimento de países católicos, caso o processo de secularização do Renascimento tivesse seguido em frente. Tal processo, infelizmente, também é muito danoso. Um capitalismo divorciado da ética cristã só tem produzido gerações de jovens ansiosos e frustrados. A retirada da base cristã das relações econômicas já cobra o seu preço no mundo de várias maneiras.

[1] AQUINO, Tomás de. Em “Suma Teológica”, Q. 78, art.1.
[2] ROTHBARD, Murray. Em “ An Austrian Perspective on the History of Economic Thought, vol. 1, Economic Thought Before Adam Smith.” Veja aqui: https://mises.org/library/economics-calvin-and-calvinism
[3] CALVINO, João. Em “Commentary on Pentateuch”, Ex 22:25.
[4] AQUINO, Tomás de. Em “Suma Teológica”, Q. 78, art.1.
[5] http://w2.vatican.va/content/john-xxiii/pt/encyclicals/documents/hf_j-xxiii_enc_15051961_mater.html 

[6] http://w2.vatican.va/content/pius-xi/pt/encyclicals/documents/hf_p-xi_enc_19310515_quadragesimo-anno.html 

[7] http://umavisaoreformada.blogspot.com.br/2016/09/peregrinos-de-plymouth-socialistas-ou.html